é uma vida sem surpresas
você está seguro
você dorme, você anda, você continua a viver
como um rato de laboratório abandonado em seu maravilhamento por algum cientista maluco
não há hierarquia
nenhuma preferência.
sua indiferença é imóvel, calma: um homem cinza para quem o cinza não possui nenhuma conotação de sonolência
mas insensível, mas neutro
você é atraído pela água – também pela rocha
também é atraído pela escuridão, pela luz
pelo calor, pelo frio
tudo que existe é a sua caminhada
e o seu olhar, que prolonga-se e escorrega
distraído em relação à beleza, à feiúra, ao familiar, ao surpreendente
sempre retendo combinações de formas e luzes que se formam e se dissolvem continuamente
ao seu redor, nos seus olhos
nos telhados, aos seus pés, no céu
no seu espelho quebrado, na água
na rocha, nas multidões.
Praças, avenidas
parques e bulevares, árvores e trilhos
homens e mulheres, crianças e cães
multidões, filas,
veículos e vitrines
construções, fachadas
colunas e capitais
passeios, sarjetas
bandeiras calçadas em arenito cintilando o cinza na chuva fina,
silêncios, algazarras, multidões nas estações
nas lojas, nos bulevares
ruas transbordantes, plataformas cheias
ruas desertas de domingo em Agosto
manhãs, noites,
noites, auroras, e anoiteceres
agora você é o anônimo mestre do mundo
aquele por quem a história perdeu sua crença
aquele que não sente mais a chuva caindo, que não vê a noite se aproximando
tudo que você é, é tudo o que você sabe:
sua vida que continua, sua respiração, o seu passo
você vê as pessoas indo e vindo, multidões e objetos ganhando forma e se dissolvendo.
Você vê o corrimão da pequena janela do comerciante de miudezas
que os seus olhos subitamente captam
você continua no seu próprio caminho
você é inacessível como uma árvore, como uma vitrine, como um rato.
Mas ratos não perdem tempo tentando dormir.
Mas ratos não acordam de sobressalto, agarrados pelo pânico, banhados em suor.
Tradução por Manuel Carreiro, a pedido do amigo Ccello Fontes.
