manuelcarreiro

Archive for May, 2009

Cambridge, Massachussets, 2009: A Brazilian "Conversa" with Cristóvam Buarque at Harvard University

In a vida e a literatura on May 20, 2009 at 10:44 pm

(David Rockefeller Center for Latin American studies) – Social keynesianism and productive cash transfers: an alternative to global crisis. 2009

Dando forma às nossas eternas incertezas (A filha do escritor, de Gustavo Bernardo)

In a vida e a literatura on May 20, 2009 at 9:08 pm

O limite entre a produção ficcional e a produção acadêmica está cada vez mais rompido. No ano do centenário da morte de Machado de Assis, surgem variadíssimos estudos para homenageá-lo. Mas há outras formas de homenagem: escrever ficções que dialoguem com a obra de Machado.

Algumas coletâneas de contos aqui e acolá, mas nada tão original (e, porque não – divertido!) como este A filha do escritor, de Gustavo Bernardo (Rio de Janeiro: Agir, 2008). Há muito eu não lia um livro de uma vez só!

Sob máscara machadiana (sei que são sinônimos), o que está em jogo em A filha do escritor é a sanidade. Afinal, num mundo onde se alardeia a “fragmentação do sujeito” e se vê uma tendência “esquizo-criativa”, por onde andará nossa sanidade? “Loucura / loucura / como fosse assim / uma prosa indireta”. A epígrafe do livro (que mais tarde descobriremos ser de um dos personagens dos personagens do livro) aponta para o desfecho óbvio, porém surpreendente, como sói ser nos bons livros.

A trama inicia-se com a chegada de Lívia à Casa Verde, onde ela é atendida pelo Dr. Joaquim, um alienista. Lívia garante ter nascido em 1872 e ser filha de Machado de Assis – mas em pleno século XXI. Joaquim, intrigado, pesquisa a obra do escritor, e descobre que Lívia é personagem do primeiro romance de Machado – Ressurreição, de 1872.

Daí por diante, segue-se um jogo intrigante que mescla elementos do conto O alienista, do romance Dom Casmurro, e até mesmo de Dom Quixote. Porém, a mescla de tantos elementos aponta para uma dimensão fictícia, onde o desejo de Joaquim por Lívia aflora, e se perde no tempo e no espaço.

No fim das contas, a supra-citada “máscara machadiana” é apenas (arrisco-me a dizer) um mote para glosar acerca das nossas eternas angústias: a incompreensão que temos de nós mesmos, a nossa fragmentação interna e externa, a incapacidade de aprender e apreendermos o outro, o nosso constante desejo de tomarmos e sermos o outro, em suma, a nossa busca inatingível por completude – tanto é que Lívia culmina por revelar-se “a mulher original”, ou seja, a mulher eternamente ideal, inatingível.

Valendo-se de uma linguagem clara, claríssima, como poucas vezes se vê na literatura brasileira contemporânea, Gustavo Bernardo tenta nos falar daquilo que não se pode falar. Empreende espécie de continuação de Reviravolta (2007), transmitindo-nos com clareza aquilo que buscamos no mais obscuro de nós – e que só pode se personificar através da arte.

A cada romance de Gustavo Bernardo, fica a sensação de que um romance grandioso está por vir. Um livro insuperável, onde o indizível mostrará, enfim, sua face.

Publicado ano passado em Dubito ergo sum.