manuelcarreiro

Archive for July, 2009

Como descobri David Foster Wallace

In a vida e a literatura on July 20, 2009 at 9:10 pm

Era sexta-feira de manhã, por volta de 7 e meia do dia 12 de setembro de 2008. Como de praxe, num dia de folga da universidade, fui dar aulas particulares de inglês.

Enquanto o meu amigo-aluno preparava um café e trocava as fraldas da sua filha, eu rodeava a blogosfera e passava os olhos no New York Times. Me surpreendi ao saber do suicídio de um jovem professor e escritor estado-unidense chamado David Foster Wallace.

Eu não sabia nada sobre Foster Wallace, mas o suicídio de um jovem professor e escritor me chamou a  atenção. No mês seguinte, a revista Piauí publicou um texto do autor intitulado A liberdade de ver os outros. O texto era o discurso de paraninfo do professor para os alunos formandos em artes do Kenyon College, em 2005.

Posteriormente, o amigo Taprógoras de Mileto me enviou o original do discurso, e descobri que o texto publicado na revista Piauí era uma tradução de excertos do texto. Se não era o texto integral, pelo menos serviu para que muitos leitores ouvissem falar do autor, e isso acabou sendo muito bom.

O texto saiu na íntegra, em abril deste ano, em livro intitulado “This is water. Procurando, ainda podem achar o texto completo pela internet afora, mas a publicação em livro dificultou um pouco o armazenamento na rede. É um texto que não canso de recomendar, um ano após a morte de DFW. É daqueles textos que marcam pra sempre. Não é auto-ajuda barata. É uma reflexão filosófica de primeiríssima qualidade.

Já montei a minha biblioteca DFW, mas li pouco. Os textos de Foster Wallace exigem muito do leitor, são para serem contemplados com vagar, anotados calmamente, refletidos. E sei que pouca gente se dá a esse quase-luxo da leitura contida, investigativa, curiosa – por uma razão ou por outra. Livro inteiro, só li o excepcional Oblivion. Li muitos ensaios e alguns outros contos. Estou me preprando para encarar seus dois romances.

Embora curta, a minha relação com os textos do escritor já foi capaz de mudar a minha percepção do que é a arte, do que é a literatura e, sobretudo: do que é a vida. Por isso vou tateando ao redor dos seus textos e me preparando pro mergulho consciente que, se já aprendi tanto com DFW lendo tão pouco, sei que não sairei ileso de suas letras.

Lendo David Foster Wallace, aprendi a perguntar melhor. Sua arte é tão intrincada e exigente, que ensina a colocar as nossas certezas em xeque – trabalho edificante num universo recheado de micro-fascismos e mini-autoritarismos velados.

O seu trabalho com a língua é tão meticuloso, que impressiona. E o seu trabalho escancara um paradoxo que vi em poucos autores: embora usando um véu com certos “ares de invenção”, sua escrita é simples, e nos ensina a voltar os olhos para os pequenos personagens do cotidiano – gente que faz o trabalho pesado, gente oprimida pelas vicissitudes escancaradas em letreiros horrendos dos jornais, gente que vive, se fode, que sente. DFW ensina a ser mais humilde.

E é  isso que aprendo com os seus textos. Não posso dizer que internalizei suas lições, e nem posso dizer que o autor tinha a intenção de ser moralista, professoral, ou qualquer outra coisa do gênero. Acho que ele não gostaria de ser visto como alguém que escreve lições – mas é inegável a função pedagógica, jamais doutrinária dos seus textos.

No fundo, tenho a impressão de que o que ele quis nos mostrar é que a vida é simples, é só isso mesmo – o resto é sofrimento inútil, um peso que não necessitamos, sísificamente, carregar.

Lamento apenas que a ânsia de gozar o infinito de cada pequeno instante tenha levado o escritor-professor a se anular num instante de dor qualquer – mas jamais uma qualquer dor.

***

Curiosamente, ficou pronto há alguns meses o primeiro filme baseado em uma obra de David Foster Wallace. Você pode assistir ao trailler de BREVES ENTREVISTAS COM HOMENS REPUGNANTES clicando aqui (link para o Youtube).

O livro em que o filme se baseia, BRIEF INTERVIEWS WITH HIDEOUS MEN, está aqui, pra quem quiser fazer uma compra. O filme baseia-se no conto que dá título ao livro.

DFW é presença constante aqui no blog:

Aqui, a transcriação da Piauí.

Aqui, um sensacional, comovente texto do professor Caetano Waldrigues Galindo, de quem sou fã, sobre DFW.

Um breve comentário sobre o novo romance de Gustavo Bernardo

In a vida e a literatura on July 20, 2009 at 9:00 pm

Em outro post aqui no weblog, há alguns meses, eu afirmei ter lido TUDO de Gustavo Bernardo. Hoje vejo que menti descaradamente pros amigos leitores – eu li todos os ensaios e toda a ficção digamos, adulta do autor. Mas propositalmente, ignorei os infanto-juvenis.

Felizmente, sempre é tempo para reparar nossos enganos. E senti-me compelido a preencher esta lacuna a partir da leitura do mais novo “infanto-juvenil” de Gustavo Bernardo: Monte veritá.

Para que o leitor entenda melhor, vou me valer de um clichêzão muito utilizado pela crítica cinematográfica em relação aos grandes filmes da Pixar, como por exemplo Procurando Nemo, Ratatouille ou ainda Wall.E: embora visem o público jovem, estes filmes devem também ser vistos pelos pais. O mesmo se aplica à ficção “infanto-juvenil” de Gustavo Bernardo: os adultos podem aprender muito.

Monte veritá “inclui” a história de Manuel, um moçambicano expatriado formado em economia que trabalha como garçom na Suíça italiana. Manuel possui a fantástica capacidade de falar diversas línguas, além de gostar de escrever.

Mais elementos sobre o enredo, não posso entregar. Só posso dizer que os paradoxos tão caros aos estudos do autor estão todos lá, convidando os jovens a duvidar sempre e a movimentar o pensamento: um professor brasileiro que estuda um filósofo tcheco encontra-se com Manuel (ficção ou realidade?), um evento-chave criado por Manuel se repete na “realidade” em que ele vive (ficção ou realidade?), etc.

Como o livro é o segundo volume da Trilogia da utopia (cujo primeiro volume é O mágico de verdade, de 2006), devo também destacar as críticas ao modo como nós tratamos os animais, o planeta, e a nossa derrocada ética – o “subtexto”  que aponta possíveis soluções para a derrocada humana no planeta é, no mínimo, instigante. E é justamente por isso que eu afirmei que adultos deverão também se deliciar com o livro: apesar de curtinho (o livro possui somente 101 páginas), ele é riquíssimo em temas bons para se refletir por horas a fio.

Achei divertidíssimo, à página 96 do livro, a presença da noção de felicidade segundo Kant, exatamente como desenvolvido em A ficção cética, de 2004. O que comprova que há maneiras inteligentes de se convidar o leitor, seja ele de qualquer “público-alvo”, a refletir. E Gustavo Bernardo faz esse convite com maestria, seja através de seus instigantes ensaios, através de suas “ficções filosóficas”, ou de seus livros infanto-juvenis que, devo dizer: vou ler todos, sem preconceito.