Era sexta-feira de manhã, por volta de 7 e meia do dia 12 de setembro de 2008. Como de praxe, num dia de folga da universidade, fui dar aulas particulares de inglês.
Enquanto o meu amigo-aluno preparava um café e trocava as fraldas da sua filha, eu rodeava a blogosfera e passava os olhos no New York Times. Me surpreendi ao saber do suicídio de um jovem professor e escritor estado-unidense chamado David Foster Wallace.
Eu não sabia nada sobre Foster Wallace, mas o suicídio de um jovem professor e escritor me chamou a atenção. No mês seguinte, a revista Piauí publicou um texto do autor intitulado A liberdade de ver os outros. O texto era o discurso de paraninfo do professor para os alunos formandos em artes do Kenyon College, em 2005.
Posteriormente, o amigo Taprógoras de Mileto me enviou o original do discurso, e descobri que o texto publicado na revista Piauí era uma tradução de excertos do texto. Se não era o texto integral, pelo menos serviu para que muitos leitores ouvissem falar do autor, e isso acabou sendo muito bom.
O texto saiu na íntegra, em abril deste ano, em livro intitulado “This is water“. Procurando, ainda podem achar o texto completo pela internet afora, mas a publicação em livro dificultou um pouco o armazenamento na rede. É um texto que não canso de recomendar, um ano após a morte de DFW. É daqueles textos que marcam pra sempre. Não é auto-ajuda barata. É uma reflexão filosófica de primeiríssima qualidade.
Já montei a minha biblioteca DFW, mas li pouco. Os textos de Foster Wallace exigem muito do leitor, são para serem contemplados com vagar, anotados calmamente, refletidos. E sei que pouca gente se dá a esse quase-luxo da leitura contida, investigativa, curiosa – por uma razão ou por outra. Livro inteiro, só li o excepcional Oblivion. Li muitos ensaios e alguns outros contos. Estou me preprando para encarar seus dois romances.
Embora curta, a minha relação com os textos do escritor já foi capaz de mudar a minha percepção do que é a arte, do que é a literatura e, sobretudo: do que é a vida. Por isso vou tateando ao redor dos seus textos e me preparando pro mergulho consciente que, se já aprendi tanto com DFW lendo tão pouco, sei que não sairei ileso de suas letras.
Lendo David Foster Wallace, aprendi a perguntar melhor. Sua arte é tão intrincada e exigente, que ensina a colocar as nossas certezas em xeque – trabalho edificante num universo recheado de micro-fascismos e mini-autoritarismos velados.
O seu trabalho com a língua é tão meticuloso, que impressiona. E o seu trabalho escancara um paradoxo que vi em poucos autores: embora usando um véu com certos “ares de invenção”, sua escrita é simples, e nos ensina a voltar os olhos para os pequenos personagens do cotidiano – gente que faz o trabalho pesado, gente oprimida pelas vicissitudes escancaradas em letreiros horrendos dos jornais, gente que vive, se fode, que sente. DFW ensina a ser mais humilde.
E é isso que aprendo com os seus textos. Não posso dizer que internalizei suas lições, e nem posso dizer que o autor tinha a intenção de ser moralista, professoral, ou qualquer outra coisa do gênero. Acho que ele não gostaria de ser visto como alguém que escreve lições – mas é inegável a função pedagógica, jamais doutrinária dos seus textos.
No fundo, tenho a impressão de que o que ele quis nos mostrar é que a vida é simples, é só isso mesmo – o resto é sofrimento inútil, um peso que não necessitamos, sísificamente, carregar.
Lamento apenas que a ânsia de gozar o infinito de cada pequeno instante tenha levado o escritor-professor a se anular num instante de dor qualquer – mas jamais uma qualquer dor.
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Curiosamente, ficou pronto há alguns meses o primeiro filme baseado em uma obra de David Foster Wallace. Você pode assistir ao trailler de BREVES ENTREVISTAS COM HOMENS REPUGNANTES clicando aqui (link para o Youtube).
O livro em que o filme se baseia, BRIEF INTERVIEWS WITH HIDEOUS MEN, está aqui, pra quem quiser fazer uma compra. O filme baseia-se no conto que dá título ao livro.
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