Em Maio, anunciei o lançamento do novo livro de Flávio Boaventura, num post sobre dois livros sensacionais.
Pois há apenas duas semanas, recebi o livro (gentilmente enviado pela Editora UFMG), intitulado O amante da algazarra: Nietzsche na poesia de Waly Salomão, justamente quando estou lendo o melhor trabalho já publicado sobre a questão da afirmação da vida em Nietzsche – The affirmation of life: Nietzsche on overcoming nihilism, de Bernard Reginster, que assim como Flávio, é professor de Filosofia.
Ler dois trabalhos acadêmicos ao mesmo tempo tão próximos e tão diferentes me fez pensar muito sobre o futuro das teses acadêmicas.
Os livros se aproximam enquanto dissertam sobre tema tão rico e pouco abordado entre os estudiosos do filósofo alemão: a questão da superação do niilismo, dos modos de se lidar alegremente com toda a crueldade e falta de sentido da vida, etc. O livro de Reginster, porém, é tradicionalíssimo: linear, científico, faz uma investigação detalhada do desenvolvimento do afirmativo nietzschiano partindo da influência de Schopenhauer e culminando na clássica seção 341 d’A Gaia Ciência – O maior dos pesos. Devo dizer, o estilo é áspero – o livro não me dá nenhum prazer em ler, não me instiga, não me desafia – apenas me enche de certezas.
O livro de Flávio, ou Boave, como é conhecido, já é uma tese pouco ortodoxa: em tom assumidamente ensaístico, nos apresenta de maneira resumida pontos centrais da filosofia nietzschiana, nos convida a ler a poesia do poeta baiano, e ainda consegue se esquivar das muitas armadilhas que um estudo comparativo em literatura prepara: Boave não usa a poesia de Waly para ilustrar teorias, tampouco usa a teoria para tentar alinhar a poética de Waly a alguma linha, escola, movimento, manifesto, prisão, em suma. Boave realiza uma ciência alegre, de fato.
A opção pelo ensaio é corajosa, dado o notório conservadorismo das academias de letras belo-horizontinas. Mas, como não poderia deixar de ser, Boave escolhe romper barreiras, e somente assim o seu trabalho poderia render tão bons frutos. Se optasse por uma análise tradicional, como soem ser as análises da escola americana ou inglesa, por exemplo, dificilmente seríamos levados a nos interessar ora por Nietzsche, ora por Waly. E é esse justamente o maior êxito, ao meu ver, da tese de Boave: ele escreveu uma tese para leitores que não conhecem profundamente Nietzsche nem Waly Salomão. Creio que esse deva ser o principal objetivo de um trabalho acadêmico. Ao invés de simplesmente morrerem e ficarem para sempre enterrados nas bibliotecas-cemitérios, deveriam servir como suporte pedagógico e convite à reflexão – e sob este aspecto, Boave se saiu muitíssimo bem. É um livro que instiga o leitor à reflexão.
Enquanto lia a tese, diversas vezes lamentei não conhecer mais Waly, e quis como nunca visitar alguns de seus livros para ler mais sobre o que Boave diz a seu respeito. Outras vezes interrompi a leitura e fui procurar algumas passagens do meu Zaratustra, ou algum aforismo de Além do bem e do mal, só pra dialogar com Boave, Waly e Nietzsche.
Num tempo onde as certezas das ciências estão profundamente abaladas, é revigorante ver uma tese como a de Boave sendo publicada pela Editora UFMG. Pode ser que as academias belo-horizontinas estejam atentando para a urgência de uma radical mudança no “fazer científico”, especialmente num momento onde as ciências (ditas) humanas agonizam em todo o mundo.
Pode ser que em breve, as academias belo-horizontinas apóiem a escrita de um romance como dissertação ou tese, como aconteceu na UERJ há apenas alguns anos, com a tese-romance Rakushisha, de Adriana Lisboa.
É passada a hora da academia se renovar, demolir a sua torre de marfim. E o livro de Boave é mais do que um sinal: é um alento para uma nova possibilidade – sim, fazer diferente e fazer a diferença é possível.
Os livros citados neste texto são:
BOAVENTURA, Flávio. O amante da algazarra: Nietzsche na poesia de Waly Salomão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. 120 p.
REGINSTER, Bernard. The affirmation of life: Nietzsche on overcoming nihilism. Cambridge: Harvard University Press, 2006. 312 p.
O livro de Boave será lançado no próximo sábado, dia 17 de Outubro, em Belo Horizonte. Apareçam lá!
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Para quem quiser ler mais sobre a possibilidade (necessidade?) da academia rever o seu imbricado e conservador modo de fazer ciência, recomendo o excelente (e curto) A ficção da tese, de Gustavo Bernardo.