manuelcarreiro

Archive for October, 2009

Os homens e suas instituições

In a vida e a literatura on October 20, 2009 at 8:55 pm

“Cut these words and they will bleed; they are vascular and alive.”

Emerson sobre Montaigne

“A scar is what happens when the word in made of flesh.”

Leonard Cohen, no romance The favourite game

As instituições são necessárias? Ao longo da série sobre a pós-modernidade (ou o que quer que você, leitor, quiser chamar a contemporaneidade), eu fiz duras críticas a muitas instituições, sempre falando a partir do meu ponto de vista, da minha vivência – sempre tentando incorporar na minha vida a reflexão. Como só falo dos assuntos que me interessam, e quando me interessam, baseio-me nas minhas observações para escrever os posts sobre os assuntos que têm minha atenção no momento. Atualmente, leio e penso especificamente sobre as instituições religiosas e os centros de estudos em Ciências Humanas (faculdades, departamentos, etc.) duas instituições das quais participei, me formei, e agora encontram-se fragilizadas no novo paradigma.

Tentando responder à questão que abre o post, escolho a mão dupla: as instituições, de modo geral, são e não são necessárias.Vamos lá…

Fazendo mais uma redução fenomenológica rasteirinha aqui, só pra ilustrar: a partir do momento (mágico, místico) em que a palavra se fez carne e o homem escolheu construir a Torre de Babel para adorar a si próprio, ao invés de agradecer pelo presente dado, o homem instituiu sua grande ruína – a incapacidade de efetivamente se comunicar. Instituir a Torre como templo de afirmação do nome dos construtores conduziu os homens à sua derrocada: querendo dar nomes a si próprios (primeira instituição falha, porque um nome é só um nome, nada diz, não revela nenhuma essência), viram-se castigados a ter que lidar com a mistura, a multiplicidade das línguas.

A língua é mais uma instituição – a palavra é carne, mas carne morta. Tá bem dito lá no Nietzsche, em algum lugar:  num nanossegundo, quando encontramos palavras para expressar algo, aquele algo já nos escapou. Estamos fadados à multiplicidade, à incapacidade de nos revelarmos, a não entender sequer quem fala a mesma língua que nós.

Dado este panorama, vou me arriscar a dizer que considero então que toda e qualquer instituição humana é a manifestação sintomática (patológica?) da tentativa de se expressar, se organizar, agregar ao seu redor os seus semelhantes. E como estamos fadados a jamais estabelecermos contatos efetivos (e ainda queremos acreditar em vida extraterrestre), as instituições tornam-se essencialmente falhas e contraditórias. Sem essa de culpa. Mas elas são inerentemente falhas porque os homens que as erigiram são falhos.

Estados nacionais, dicionários, romances, poemas, igrejas, ONGs, leis, rascunhos, nomes, gibis. Todas as instituições são apenas as cicatrizes que portamos porque a palavra se tornou carne. A inapacidade de falar e amar dói, mas continuamos criando sentido, instituindo regras como chão necessário para pisar.

Em defesa da pós-modernidade (o que quer que este termo signifique para você)

In a vida e a literatura on October 15, 2009 at 9:04 pm

Um

“Now, smell the rain of London it still insists
That we beg for our purity
As if we are pure in the rain of our contentment
As if I can think of this no more.”

(Jeff Buckley, music: Vancouver – Album: Sketches for my sweetheart the drunk)

Tenho, como sempre, mantido muitas conversas com muitas pessoas, e o descontentamento é geral. Todo mundo sofre de bipolaridade, todo mundo está sofrendo por alguma desilusão amorosa, todo mundo sofre pela falta que o dinheiro faz, todo mundo sofre porque o emprego é ruim, todo mundo sofre por fatores externos, todo mundo sofre quando percebe que o desajuste é interno.

Fico tentado a usar a frase que, diz um amigo meu de BQ (quando estive lá em Fevereiro deste ano, não tive tempo de visitar o “templo das musas”), está escrita na entrada do museu da loucura, em Barbacena, Minas Gerais: “aqui, a sua depressão parece frescura”, ou algo similar. Mas em tempos onde a depressão é tratada como um desvio ou uma falha dos nossos ne(u)rotransmissores, fica até difícil falar em frescura. A tristeza ou melancolia aparentemente inerente à geração Y se espalha mais rapidamente do que o N1H1 – e sinto muito se a tentativa de soar engraçado soou mórbido.

Essa bipolaridade, multiplicidade, esquizofrenia, solidão, depressão, o que quer que seja, é obviamente manifesta na arte, na produção intelectual, nos dilemas administrativos dos nossos políticos. (Aqui, puxo uma nota: sei que os termos todos acima tratam-se de coisas relativamente distintas entre si, e não tenho a pretensão de analisar especificidade alguma).

A “doença” pós-moderna era previsível: não acho que reduzir a conversa ao âmbito existencialista-fenomenológico seja uma perda, mas vou me desviar dela, por ora, até porque sempre que trato desse tema aqui no blog, generalizo  (tentativa de fazer uma teoria rasteirinha) por essas correntes. Agora, vou rastejar pelos caminhos da epistemologia.

A rapidez, a liquidez, o ______________, a ____________________, o deserto pós-moderno (deixei espaços para que o leitor crie a sua denominação chique e se filie ao melhor da tradição filosófica contemporânea) nada mais são do que um preço que pagamos por ocultar a sentença de Descartes: seguimos o cogito e sufocamos o dubito – afinal, se Deus é dúvida, a dúvida é o diabo, não é? (Isso tá no Guimarães Rosa, ou fui eu que criei? Já nem sei se o que escrevo é meu mais…)

Por outro lado, a crença nos êxitos da razão e da técnica foram a nossa grande desgraça: vivemos mais, e o planeta já não suporta os seus filhos e suas bizarras criações. Paradoxo? Sim e não. Sim, porque quanto mais desenvolvemos modelos técnicos e condições para estender a nossa vida, mais a natureza-monstra se (re)volta. Não, porque até que era previsível e necessário. Previsível, porque cada passo afirmativo dado na vida corresponde à morte de milhões de células. Necessário, porque a vida não é nada sem a morte – a sua amante e o seu grande momento.

Não tenho a pretensão de propôr solução alguma para a lama em que estamos imersos. Mas posso dizer como lido com a coisa. Sempre que uma lufada de tristeza vem me atormentar, eu ponho meu cérebro em modo criativo e repito o mantra “o amanhã, o amanhã, o amanhã” e rapidamente me lembro que não tenho tempo para me arrepender, para lamentar, para chorar, porque o exato segundo em que estou escrevendo esse texto já passou e jamais vou vê-lo novamente – é a necessária idéia da morte que me engrandece e fortalece – e o horror que sinto ao imaginar sua face me põem a produzir, produzir, produzir, o que quer que seja, botando o que quer que funcione pra funcionar, porque logo terei passado, e se lamentar covardemente é a pior das sensações. Por isso não me arrependo de absolutamente nada que fiz ou que vivi – tudo teve o seu tempo, e valeram para que eu aprendesse algo, ainda que a duras penas. E é assim que a vida me mostra a sua face.

A questão é densa. Tão densa que sequer se chegou a um consenso sobre como chamar a “crise”. Nem a palavra “crise” está servindo. E antes que algum ex-professor chato venha me corrigir: sei que o prefixo pós significa adv.prep.lat. post ‘atrás de; depois de (no espaço e no tempo); atrás, depois, após, em segundo lugar; em seguida, pouco depois’; ver após; f.hist. sXIII pos, sXIII pus, sXV pós – também estou consciente que a “agenda da modernidade” não foi cumprida. Mas tanto faz. O nome pegou.

Dois

A série segue analisando alguns dos sintomas desta nova perspectiva pós-moderna. Os dramas humanos permanecem os mesmos, mudou apenas a forma de expressar essa angústia. Começo pelo estudo de filosofia e  literatura.

O advento dos meios digitais de transmissão da informação, além de acelerar a velocidade com que “sabemos” as coisas, tornou o conhecimento algo muito fugaz. Claro que isso por um lado, é benéfico: pessoas que jamais tiveram acesso diário à mídia impressa, agora além dos grandes centros midiáticos, têm acesso à informação independente. Mas vou desenvolver isso melhor num post sobre o conhecimento e o futuro dos jornais, dando o meu pitaco num tema recorrente pela internet afora.

Antes, queria falar de um novo modo de se fazer filosofia e literatura, e queria também discutir o papel da filosofia e da literatura no mundo de hoje.

As ciências humanas estão perdendo terreno no ambiente universitário (e estão perdendo terreno no mundo todo), porque ela fez algo (ai, isso vai doer!) jamais deveria ter feito: escancarou suas portas para o mercado.

No século XIX, Nietzsche já falava de uma certa “aristocracia” da arte e da cultura. Muitos interpretaram a visão do poeta prussiano como uma visão extremamente elitista. Assim como acontece em Além do bem e do mal e Genealogia da moral, os teóricos do “realismo” na arte e na literatura  tentaram “enfiar” as cosmovisões humano-existencialistas de Nietzsche numa análise das pirâmides sociais, daí extraindo um prato cheio de merda anti-semita, sendo que o próprio poeta-filósofo afirma em sua autobiografia ter nojo de tudo que é anti-semita e alemão, o que não o impedia de criticar a estrutura e a gênese da moral judia (junto da moralidade cristã e grega). Ressalto que Nietzsche jamais incentiva ninguém a abandonar a sua convicção no que tange à moralidade ou religiosidade. Proclamando-se “homem-dinamite”, o cerne do seu projeto filosófico é nos levar a pensar, a questionar as verdades que aprendemos e aceitamos sem nem ao menos saber por quê.

Por essas e outras é que as ciências humanas estão fadadas a permanecerem em poucas universidades que ainda destinarem alguma esmola pra seus pesquisadores. Por terem se tornado um negócio, elas pipocaram por toda parte, e facilitaram o acesso de milhares de pessoas à universidade. Mas seguida à entrada na universidade, vem a frustração: o aluno logo percebe que os estudos em filosofia, literatura e linguística não “servem” pra nada que tange ao mundo dos negócios, como já defendi numa comunicação polêmica (que me fez perder a apreciação de alguns colegas de trabalho e ex-professores) e também no post em defesa da inutilidade.

A caminhada para os neófitos nas ciências humanas é um tanto ingrata, mas isso se deve, outra vez à mercantilização do ensino. “Vender” os estudos em “humanidades” como uma “ciência” que pode tornar o cidadão melhor (detesto esse chavão), ampliar a sua formação humanística (esse é pior ainda!) ou ensiná-lo a ter maior senso crítico diante da realidade (isso dói ler nos sites das universidades…) revelou-se um engodo sem par.

Estudar Homero, Platão, Jesus ou Derrida, ler Guimarães Rosa, Saramago, Edgar Allan Poe ou James Joyce não torna ninguém melhor pessoa, mais ético, mais crítico. O ato em si não. A arte é realmente para poucos. Podemos argumentar que pelo menos estas instituições serviram para apresentar às massas um pouco da grande arte canônica universal, e outros blá blá blás. É de fato, louvável. Mas o pano de fundo mercantilista também dá nojo.

Ao invés de vender esse grande engodo para um grande número de pessoas, as ciências humanas deveriam mesmo se restringir a poucos centros, buscando reunir pessoas verdadeiramente interessadas no assunto. As faculdades de ciências humanas perderam uma guerra que elas próprias criaram. Não há como nivelar o estudo de filosofia e literatura com o de administração ou engenharia mecatrônica.

Veja o leitor que não desmereço o papel das ciências humanas. Elas dão sim conforto metafísico para o nosso mal metafísico inevitável. Mas são uma paixão, quase que um “Hobby”. Ninguém é melhor que ninguém por gostar de ler filosofia ou literatura. As ciências humanas precisam retirar o seu manto de superioridade. Os professores da área adoram tirar sarro das ciências técnicas, como se somente eles fossem detentores de uma sabedoria superior.

A filosofia e a literatura são sim ciência, e sim, são responsáveis diretas pela nossa imensa herança cultural. O fato é que a divisão dos saberes com fins de dominação e hierarquização prestou um imenso desserviço, além de criar uma luta entre departamentos requerendo maior investimento em pesquisa.

Enquanto filosofia e literatura não resolverem o seu novo lugar, e começarem a, de fato dialogar com as novas tendências científicas, ou com o paganismo new-age vigente (nunca Deus esteve tão morto, coitado) elas estarão fadadas à ridicularização nos corredores da academia. É preciso tirar o manto superior, colocar uma sandália rasteira, e passar a rastejar junto às pessoas que jamais ouvirão falar de Shakespeare e da riqueza que os textos do bardo possuem. Andando “lá embaixo”, talvez uma nova intensidade seja gerada. Talvez um convite para movimentar o pensamento seja o suficiente para tornar o dia de alguém melhor.

***

Veja só o leitor como são as coisas. Enquanto morei no Brasil, convivi com um sem-número de pessoas frustradas e aterrorizadas com o rumo que as ciências humanas tomaram especialmente dos anos 70 pra cá. O afunilamento, o fechamento das universidades, a falta de apoio e incentivo à pesquisa. Ao invés de batalhar para sustentar a sua busca por saber, ficam se lamentando. E usando o argumento da “paixão” pela área como uma desculpa para não trabalhar em nada fora da área.

Aqui na América do Norte é completamente diferente. É comum entrar num restaurante aqui durante as férias escolares e encontrar um garçom que é aluno de um programa de doutoramento em ciências sociais, etnobiologia, psicologia. Durante o semestre, ele tem umas vaguinhas como professor assistente, para pagar o programa. Com o troco, ele paga o aluguel e se alimenta. Com sorte, compra os livros básicos do curso. Se não tem dinheiro para os livros do curso X, nem se inscreve.

É uma lógica mercantilista, pois até as instituições de ensino públicas aqui são pagas. Mas é extremamente coerente.

Vejam vocês que o professor e escritor Lewis Hyde, autor do melhor livro que li até aqui em 2009, trabalhou como eletricista e carpinteiro para poder ter tempo de escrever seus livros. No currículo dele, podemos ver que ele passou pelas melhores universidades do mundo.

Três

A partir da obra do filósofo-poeta Nietzsche (brilhantemente ilustrado por Edward Munch no quadro acima), muitos escritores se perderam.

As abundantes interpretações toscas que culminam em livros chatos e mal-escritos é impressionante. Não me espanta. Muitos leram Nietzsche como um arauto do niilismo (ausência de valores), e não se deram ao trabalho de interrogá-lo sobre o seu anúncio: acharam que a premissa nietzschiana era semelhante a de Dostoiévski – aquela de um mundo sem Deus onde tudo é permitido.

O resultado é uma série de autores que se expressam por uma linguagem confusa – os seus textos não têm enredo, personagens. Apenas um narrador, ou uma miríade de narradores entediados e enjoados, que se afundam em drogas e no sexo banal. A ausência de valores justifica as ações imorais. Uma lástima. A vida não tem graça, nada faz sentido, três vivas à angústia.

Felizmente, a fragmentação “pós-moderna” (não se esqueça leitor, de inserir a denominação que melhor lhe aprover) também resultou numa série de filósofos e escritores extremamente inventivos, que souberam criar jogos de pensamento com o niilismo contemporâneo e, como a tartaruga de Zenão, ultrapassar o que parecia impossível ultrapassar.

Se me esquivei de citar nomes para criticar ou fazer troça, não posso deixar de citar nomes para elogiar aqueles que melhor entenderam esse novo estilo. A escola francesa dos anos 60 – Foucault, Deleuze, Klossowski é a minha favorita. Se muitas vezes os seus textos são densos, complexos, é porque eles utilizam do estilo fragmentário (à maneira de Nietzsche) para construir os quebra-cabeças. Muitos criticam esta escola, dizem que ela é vazia, que sua linguagem e os seus paradoxos não conduzem a nada. Pois eu acho que eles foram os que melhor entenderam o paradigma contemporâneo: os quebra-cabeças convidam à aventura do pensamento como atividade saudável que supera a ausência de valores em que (especialmente os mais jovens) estamos imersos.

Em literatura, acho o António Lobo Antunes o maior em língua portuguesa. O David Foster Wallace o maior em língua inglesa. Nenhuma novidade pro amigo que lê o blog faz tempo. Eles resgatam o ideal artístico grego – são superficiais por profundidade. O meu amigo Taprógoras me diz que gosta de narrativas organizadas, gosta de “estórias”. Pois tanto Lobo Antunes quanto Foster Wallace prezam as “estórias”. Se eles são gênios da linguagem, isso não quer dizer que o que tanto dizem é vazio, como os autores da primeira escola que evito citar nomes pra não causar celeuma. Por trás de sua intrincada linguagem, há um enredo bem pensado, e muita genialidade ao redor da história simples, porém complexamente arquitetada.

Se por um lado, esse estilo complexo afasta muitos leitores, levando-os a consumir crepúsculos, códigos da Vinci ou o que quer que seja, por outro, ele se alinha àquilo que de melhor se produz em termos de arte universal.

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NOTA DE AGRADECIMENTO:

Aproveito para agradecer ao Ulisses Adirt pela citação no editorial do dia primeiro de Dezembro d’ O Pensador Selvagem. Segue o trecho:

Talvez outro exemplo valha a pela.
___A boa indicação que dei a vocês (o livro do Manguel
) também foi dada para um comentarista, em meu blog. Querem ver o efeito da boa Literatura?
___No dia 18 de novembro, Manuel Carreiro, canadense, professor universitário de Filosofia, comentou em um texto meu sobre livros
o seguinte: “Ulisses, legal ter encontrado esse post – venho ate escrevendo uma serie sobre a inutilidade da filosofia e da literatura recentemente.” (comentário completo aqui). Em resposta, indiquei um artigo do Manguel.
___Menos de 10 dias depois, Manuel Carreiro publicou em seu blog
um post intitulado “discordando de mim”, em que indica alguns textos dele sobre a “inutilidade da filosofia e da literatura”, para discordar dos próprios textos e indicar o artigo “Como Pinóquio aprendeu a ler”, do Alberto Manguel. Aposto um doce poema como as aulas de Filosofia do professor Carreiro vão mudar bastante.

São diálogos como esses que me fazem manter o blog, ainda que a duras penas.

Agradeço ao Ulisses por “movimentar” a conversa, e agradeço a todos que leem e comentam aqui – aprendo muito com vocês.