manuelcarreiro

Archive for December, 2009

Bom e velho neônio, por David Foster Wallace

In a vida e a literatura on December 29, 2009 at 9:11 pm

Tradução por Manuel Carreiro para excertos do conto “Good old neon”, de David Foster Wallace, do livro “Oblivion”. págs.141-181.

Observação: este texto é apenas o agrupamento de partes do conto que resolvi destacar. Não há nenhuma pretensão de apresentar o texto como se ele fosse uma tradução fiel – o que lhes é apresentado a seguir é mais  uma série de recortes, uma trescriação do que um texto conexo.

esta tradução é dedicada para meus amigos

A minha vida inteira, fui uma fraude. Não estou exagerando. O que tenho feito a maior parte do tempo foi tentar criar uma certa impressão de mim mesmo para as pessoas. Para que elas gostem de mim, ou me admirem. Talvez seja um pouco mais complicado que isso. Mas quando você para pra pensar, tudo se resume na busca para que gostem de você, te amem. Que tenham admiração, que te aprovem, que te aplaudam, tanto faz.

Me neguei a experimentar antidepressivos, eu não conseguia ver a mim mesmo tomando pílulas para tentar ser uma fraude menor do que eu era. Eu pensava que, se elas funcionassem, como saberia se eu era eu mesmo ou as pílulas? Naquele tempo, eu já sabia que era uma fraude. Eu sabia qual era o meu problema.

Ninguém jamais fez algo de ruim para mim, cada problema que enfrentei, fui eu que o causei. Eu era uma fraude, e o fato  de que eu era solitário era minha própria culpa (é claro que os ouvidos dele se mexeram ao ouvir fraude, que é um termo carregado) porque eu parecia ser tão centrado em mim mesmo  e fraudulento que experimentei tudo em termos de como as pessoas me viam e o que eu precisava fazer para criar uma impressão de mim que eu queria que as pessoas tivessem.

Eu estava dizendo que eu me sentia como se estivesse preso na armadilha deste falso modo de ser, e era incapaz de ser totalmente aberto e dizer a verdade independentemente disso me permitir ou não olhar as pessoas novamente nos olhos. De alguma maneira, resignadamente, eu disse sim, e isso fez com que a parte fraudulenta e calculista do meu cérebro ficasse perdida o tempo todo, como se estivesse contantemente jogando xadrez com alguém e tentando descobrir se eu poderia fazer esse alguém mover suas peças de certo modo que eu o induzisse a se mexer para outro lado.

O paradoxo da fraudulência é que quanto mais tempo e esforço você gasta tentando impressionar ou atrair outras pessoas, menos impressionante e atraente você se sente por dentro – afinal, você é uma fraude. E quanto mais fraude você se sente, mais você tenta conduzir uma imagem adorável de si mesmo para que as outras pessoas não descubram que pessoa oca, fraudulenta você realmente é.

Não, não foi o episódio da tigela quebrada que originou ou causou minha fraudulência, tampouco algum tipo de trauma de infância que nunca superei e deveria fazer análise para superar. A minha parte fraudulenta sempre esteve lá, como uma peça de quebra-cabeças – falando objetivamente, é uma verdadeira peça de quebra-cabeças muito antes de você descobrir como ela se encaixa perfeitamente em você.

O que ocorre dentro de nós é tão rápido, tão grandioso e tão totalmente conectado para que as palavras consigam meramente rascunhar as entrelinhas de uma pequena parte que seja de qualquer instante dado. A velocidade do pensamento e das idéias, memórias, realizações, emoções e assim por diante é ainda mais veloz – exponencialmente veloz, inimaginavelmente veloz – quando você está morrendo, criando sentidos durante aquele pequeno minúsculo nanosegundo entre o momento onde você tecnicamente morre e o que vem depois -  então aquela coisa clichê de que a vida inteira passa diante dos nossos olhos no momento da morte é mais ou menos isso – embora o termo “vida inteira”, aqui, não seja uma coisa sequencial, onde primeiro você nasce, depois vai para o berço, depois você está no centro das atenções do jogo de baseball, etc., que acaba sendo tudo o que as pessoas se lembram quando dizem “minha vida inteira” – isso significando uma discreta e cronológica série de momentos que eles acrescentam e chamam de o tempo de suas vidas.

Palavras e tempo cronológico criam todos esses desentendimentos acerca do que está realmente acontecendo no nível mais básico. E ainda assim, nossa língua é tudo que temos para tentar compreender e tentar formar algo maior ou mais significativo e verdadeiro do que qualquer outra pessoa, o que é um outro paradoxo.

Dr. G me diria depois que o fenômeno da “vida inteira passando no final” é mais algo como aquela faixa branca na superfície do oceano, ou seja, esse é o único momento em que você se acalma de fato e escorrega de volta para aquilo que você nem sabe que é um oceano.

O que quero dizer é que não importa o que você pensa a meu respeito – porque, apesar das aparências, o que você pensa não tem nada a ver com o que eu realmente sou.

O fato é que nós todos somos solitários, é claro. Todo mundo sabe disso, é quase um clichê.

Um corolário para o paradoxo da fraudulência é que você simultaneamente quer enganar todo mundo que encontra e ainda quer, de alguma maneira, encontrar alguém que é seu igual, seu par, e que não pode ser enganado.

Na verdade, eu parecia não ter “eu” interno verdadeiro, e quanto mais eu me esforçava para ser genuíno, mais vazio e fraudulento eu acabava me sentindo por dentro, (o que não contei para ninguém até fazer análise com o Dr. Gustafson).

Medindo os tipos de coisas que seus superiores querem acreditar (inclusive a crença de que eles são mais espertos do que você, e é por isso que são seus superiores) – uma das piores coisas sobre a concepção de competitividade, “masculinidade orientada por conquistas” que a América supostamente introjetou em seus machos, foi que a competitividade causou um certo estado de medo de que o amor genuíno seja impossível. E talvez a real causa do meu problema não seja fraudulência, mas uma básica incapacidade de amar de verdade.

Mesmo que a minha fraudulência e incapacidade de amar sejam basicamente a mesma coisa, ser incapaz de amar de verdade pelo menos era um modelo diferente, ou talvez uma lente diferente através do qual eu via o problema, e ainda parecia como uma forma de prometer atacar o paradoxo da fraudulência em termos de reduzir a parte do ódio que tenho por mim mesmo, que reforçava o medo e a consequente tentativa de manipular as pessoas para que elas dessem toda a aprovação de que eu precisava.

Eu estava me matando porque eu era essencialmente uma pessoa fraudulenta que parecia ter uma lacuna de caráter e força para encontrar um modo de parar, mesmo depois de perceber que minha fraudulência cobrava um preço altíssimo. Também percebi que, quando tudo estivesse dito e feito, eu nada mais era do que um jovem rico e bem-sucedido de passagem, incapaz de amar – e descobri que não suportava a banalidade deste “eu” insuportável – afinal, eu era tão vazio e inseguro que eu tinha uma necessidade patológica de me enxergar como alguém de alguma maneira excepcional ou fora de série, todo o tempo.

O filósofo alemão Kant estava certo a esse respeito – nós, seres humanos, somos muito parecidos no que tange às nossas configurações básicas. Embora sejamos ligeiramente conscientes disso, somos basicamente expressões de nossos diretórios evolucionários, e esses diretórios são expressões de forças infinitamente maiores e mais importantes do que nós somos. Basicamente, eu estava num estágio onde o homem percebe que tudo que ele vê o ultrapassa. Como construção linguistica, sei que isso é clichê. Mas no estado em que me encontro, esta consciência é algo mais, acredite.

Então chore o que quiser – não contarei para ninguém. A verdade é que morrer não é ruim, mas dura para sempre. E aquele sempre não é tempo algum. Sei que parece uma contradição, ou talvez mero jogo de palavras. O que quer que seja, funciona – e é uma questão de perspectiva.

No fim, temos a parte mais duradoura, mais real e sentimental de nós fazendo a outra parte ficar em silêncio, como se estivessem nivelados olho no olho e dizendo, quase gritando: “nem mais uma palavra”.

The death of the author and the birth of the reader: reading Antonio Lobo Antunes’ chronicle “Recipe to read me”

In a vida e a literatura on December 20, 2009 at 8:50 pm

by Jason Manuel Carreiro

*Essay originally published in CADERNOS CESPUC DE PESQUISA n.14 in June, 2006 – p.88-95. Translation by the author himself.

Read in Portuguese here.

Abstract

This paper studies the relation between the narrative and authorship voices in António Lobo Antunes’ chronicle “Receita para me lerem”, with the purpose of discussing the aesthetic function of a literary text considered as pure exteriority, as well as the implications of that perspective in the relation between reader and literature.

Key words: Author; Narrator; Reader; Aesthetics; António Lobo Antunes.

1. Recipe to read me?

The title “Recipe to read me” (Antunes, 2002, p.109-11)[1] assumes a text filled with coded domains in order to achieve a set formula that can be used as a tool for reading – after all, a recipe is detailed information about a certain amount of ingredients and how to prepare them to achieve a final result.

Obviously, the chronicle in question doesn’t provide these encoded domains with ease – the texts of António Lobo Antunes are constructed as to prevent the seizure of significant advance and meanings. The Portuguese author’s text has a direct relationship with an exteriority (something that I will return to in more detail later) so we can’t infer that there is a recipe to read him, this combination of ingredients that can easily be mixed and then later digested:

(…) Words are only signs of inner feelings, and the characters, situations and plot the surface excuses I use to drive to the very bottom inside the soul. The real adventure that I propose is that the narrator and the reader are set in the blackness of the unconscious, the root of human nature. Who does not understand this notice, will only understand the most fragmented and least important things of my books: the country, the relationships, the problem of identity and how to find it, Africa and the brutality of colonial exploitation, etc.. themes perhaps very important in terms of political or social, or anthropological thinking, but that have nothing to do with my work. (Antunes, 2002, p.109-10)

The narrator of the chronicle (perhaps we can consider him the empirical writer António Lobo Antunes, implicitly present) says in the quote above that the elements that give shape to his novels are only “surface pretexts” to conduct to an “inside out” region deep in the soul. However, if there is such inside out bottom line that the reader can be conducted to, then the “surface pretexts”, which should be the ingredients in this “recipe to read me” don’t work at all. According to the narrator, these elements, which are the “most  fragmented and less important of the books”, have nothing to do with his books. And if they have nothing to do with the books, then there can’t be a possible recipe to read them. There may be, perhaps, a “Journey to the blackness of the unconscious, to the root of human nature,” that reader and narrator must travel together:

I once said that the ideal book  would be the one in which all pages are mirrors that reflect me and the reader, until none of us knows which one of us we are. I try to make them as if each one of us is both of us together, and that we come back from these mirrors as we are looking straight into the cave of what we were. This is the only salvation I know and also the only kind that I have interest in. (Antunes, 2002, p.111, my emphasis)

This journey in company of the narrator makes the reader take hold of the text, feel part of it, pure interiority in the exteriority that the text is: “I ask you to care for it, to understand that it belongs to you and, besides understanding that it belongs to you, the text is what can, at best, give life some meaning”. (Antunes, 2002, p.111). Anton Ehrenzweig (1977) says that our surface observing mind, only having availability to the articulated formal structure (Gestalt), is unable to reach the moving and fluid structures in the deep layers of our mind. However, the formal aesthetic functions (sound, color, language, etc.) may allow the surface mind to understand this “darkness of the unconscious, root of human nature,” the cave of what we were – even though it remains (and will forever remain) unattainable. Their function faced to the unachievable, then, is to connect to life – art as appease, comfort to the man’s harrowing journey in search of himself. At best.

2. The text as exteriority

Consider the narrator of the chronicle a “literary representation” of the desire of the empirical author – António Lobo Antunes – to talk about his novels, his writing. We saw in the previous section that the script to which the narrator refers to, is built with surface elements (pre-texts) in order to lead the reader (in a joint trip with the narrator) towards an unreachable darkness (unconscious). But if that blackness is unattainable and permanently deformed, how can reader and narrator together think about a safe haven to be achieved?

Starting from the perspective postulated by Tatiana Levy (2003) that, according to Maurice Blanchot, art is done in unfulfillment (i.e., it is necessary to deny what we call reality to build a fictional unreality), it seems to me that the narrator of the chronicle shares the perspective that there is something to be achieved: the dark blackness remains, but there is a path (in this case the text) that can (and should) be interpreted through the voices and keys that are in it. “One should abandon his own keys, those that we all have to open our lives, our lives and the lives of others, and use the key that the text offers(Antunes, 2002, p.109)

Operating during the course of reading with scattered interpretive keys and sometimes with the hidden keys in the text, the reader will be part of the “outside”, or at least have access to the externality that is the text:

Outside is the space – but a space without a definitive place – of literature. Literary experience is constructed outside. And that needs to be clear now, because the outside is not the place where literature is built, but is itself the very literature. In other words, literature is not something you give to an outside world. It is the Outside, this non-place without intimacy, without a hidden interior, where the artist is the one who lost the world and has also been lost as he can no longer say Me. (Levy, 2003, p.29 )

Note that the postulation “without a hidden interior” in the quote gives full autonomy, and why not, total freedom to the text, and refers directly to the “blackness of the unconscious” that the narrator talks about, a hidden inner darkness, which remains so much hidden inside the text, that it is hermetic and unattainable.

Beyond the discussion of literary genre about the chronicle, let’s consider this perspective as a literary manifestation of pure externality. But if there is an externality in this darkness that is no longer there, (it is absent in the exteriority of the text) if there is a place to walk trough and we presume it to be achieved, and never reach it, then what would be the value of the act of reading?

The narrator says at the beginning of the chronicle that he is disappointed when someone tells him that they have read his book. He informs us that his books are not to be read as the ordinary meaning that is given to the word “read”: “(…) the only way it seems to me to address the novels I write, is picking them up in the same way you catch a disease”. (Antunes, 2002, p.109) To take this externality as a disease refers to the Deleuze-nietzschian postulation that every phenomenon is established as a symptom. Vânia Azeredo (2002), in explaining the Nietzschean quest for the origin of the value of values (and Nietzsche refers to Western culture in general) tells us that the ability to interpret and evaluate the symptoms (phenomena) is only possible through the establishment of symptom (to illustrate the statement, consider that the text could trigger a disease symptom in a reader) as a trial of strength, as if the text could be “caught” as a disease (as stated by the narrator of the chronicle). Catching the disease from the text will allow the triggering of symptoms (phenomena), so this is the triggering factor that will enable our listening to the voices of the body and, intoxicated by the forces of the text, will allow the travel into the far away dark and unattainable text – origin and end of the externality as the creative process. “Abandon your clothes of civilized creatures, full of restrictions, and allow yourself to hear from the body.” (Antunes, 2002, p.111) Such restrictions to which the narrator refers in the chronicle may be interpreted as a hierarchy, Apollinian order required by the Western tradition – restrictions that deny the dark, the evil, the caos, who want to shut the voices of the body.

3. Conclusion: the death of the author and the birth of the reader

Reaching the exteriority of the text, catching this “outsiderness” as a disease, giving voice to your body and to strengthen from the symptoms that come from the “literary disease,” the narrator says that he has no intention to cause the reader to consume himself in the exercise that refers to the deep wilderness of the act of reading, while running through voices and dialogues with culture, in general. He only recommends that the reader should walk the paths of fiction like he walks in a dream:

Walk through my pages as in a dream, because in this dream, in it’s clarity and it’s shadows, one will be finding the meanings of the novel, an intensity that corresponds to your instincts and clarity in the shadow of your pre-history. And once you have finished your journey and closed the book convalesce. (Antunes, 2002, p.110)

Walking through an oneiric dimension and recovering from the disease, the reader will have a proper voice among the voices of the text, but it is worth noting that the text is to be read and felt, and readers won’t be consumed in this exercise – but at the same time, will be part of it:

I demand that the reader has a voice among the voices of the novel or poem, or vision, or other fancy name they give to be able to fit in the middle of the demons and angels of the earth. Another approach is –  what I write is limited to a reading, it isn’t an introduction to the wilderness within,  where the visitor will have their flesh consumed in solitude and joy. This does not make it complicated to take the work such as a disease, as  I mentioned: you shall see that the text returns to yourself loaded with despoliation. (Antunes, 2002, p.110)

Avoiding to close the question proposed by Manuel Gusmão (1998) in the essay entitled “Anonymity or Alterity?”, it seems appropriate to consider that the approach suggested by Barthes, that “(…) the death of the author-pays with the birth of the reader”(Barthes, 2004, p.64) indicates, as proposed by the Portuguese critic, a process of alterity, as the author’s name actually ends up being signed (as we noted in this study) inside and outside the text, as an implicit narrator and as an empiric author. After all, amid the myriad voices that cry in the range from the text, it is the creation of the piece, and the reading of this artistic expression that really matter: “Look how the figures that populate what I say aren’t described and have almost no relief: it’s because it is yourselves.”(Antunes, 2002, p.111)

With Barthes (2004), we can conclude that a text is made of multiple writings, many cultural keys that mimic, challenge, and dialogue. And the local of this multiplicity is not the author, as the narrator of the chronicle “recipe for to read me” postulates. This site is in the reader, which is this someone whom the text is written for, is this someone who must abandon his judging ability to enjoy the benefit of the light that is inherent to literature, and that will belong to the reader, at best, to connect the reader’s life and assist in calming the pain of his existence.

Bibliography (all references in Portuguese, with my free-translation of the titles in English)

ANTUNES, António Lobo. Receita para me lerem. In: Segundo livro de crónicas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002. p.109-11.

AZEREDO, Vânia Dutra de. Bom e mau, bom e ruim. In: Nietzsche e a dissolução da moral. São Paulo: Discurso Editorial / Editora UNIJUÍ, 2000. p.47-90.

BARTHES, Roland. A morte do autor. In: O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 57-64.

EHRENZWEIG, Anton. Psicanálise da percepção artística: uma introdução à teoria da percepção inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: Estética: literatura e pintura, música e cinema. (Col. Ditos e escritos III) Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. p.264-98.

GUSMÃO, Manuel. Anonimato ou alterização? Revista Semear, Rio de Janeiro, nº.4, Abr/1998. Disponível em   http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/4sem_18.html Acesso em 06 jun. 2003.

LEVY, Tatiana Salem. A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Pró-Reitoria de Graduação. Sistema de Bibliotecas. Padrão PUC Minas de normalização: normas da ABNT para apresentação de trabalhos científicos, teses, dissertações e monografias. Belo Horizonte, 2004. Disponível em   http://www.pucminas.br/biblioteca/normalização_monografias.pdf

Translation:

Antunes, Antonio Lobo. Recipe to read me. In: Second Book of Chronicles. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002. p.109-11.

Azeredo, Vânia Dutra de. Good and bad. In: Nietzsche and the dissolution of morals. São Paulo: Discurso Editorial / Editora UNIJUÍ, 2000. p.47-90.

Barthes, Roland. The death of the author. In: The sound of the language. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 57-64.

Ehrenzweig, Anton. Psychoanalysis of artistic perception: an introduction to the theory of unconscious perception. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

Foucault, Michel. What is an author? In: Aesthetics: literature and painting, music and cinema. (Col. Sayings and writings III) Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. p.264-98.

Gusmao, Manuel. Anonymity or othering? Semear Magazine, Rio de Janeiro, No .4, Apr/1998. Available in   http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/4sem_18.html Accessed 06 jun. 2003.

LEVY, Tatiana Salem. The experience of the outside: Blanchot, Foucault and Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

Pontifical Catholic University of Minas Gerais. Dean of Graduate studies. Library System. PUC Minas standards: ABNT rules for presentation of scientific papers, theses, dissertations and monographs. Belo Horizonte, 2004. Available in   http://www.pucminas.br/biblioteca/normalização_monografias.pdf


[1] All quotations from the chronicle Receita para me lerem (Recipe to read me) refer to the book Segundo livro de crónicas (Second book of chronicles) and will be indicated only by the page number.

A morte do autor e o nascimento do leitor: um estudo da crônica “Receita para me lerem”, de António Lobo Antunes

In a vida e a literatura on December 19, 2009 at 9:16 pm

por Jason Manuel Carreiro

Ensaio originalmente publicado em CADERNOS CESPUC DE PESQUISA n.14 em Junho, 2006 – p.88-95.

*Leia este texto em inglês aqui.

Resumo

Neste estudo, problematiza-se a relação entre a voz narrativa e a voz autoral na crônica “Receita para me lerem”, de António Lobo Antunes, no intuito de discutir a função estética de um texto literário compreendido como pura exterioridade e as implicações de tal perspectiva na relação leitor – obra.

Palavras-chave: Autor; Narrador; Leitor; Estética; António Lobo Antunes.

I. Receita para me lerem?

O titulo “Receita para me lerem” (ANTUNES, 2002, p.109-11) pressupõe um texto preenchido por domínios codificáveis no intuito de atingir uma fórmula pronta que possa ser utilizada como ferramenta de leitura – afinal, uma receita é indicação minuciosa sobre uma certa quantidade de ingredientes e a maneira de prepará-los para atingir um resultado final.

Obviamente, a crônica em questão não fornece estes domínios codificáveis com facilidade – os textos de Lobo Antunes são construídos de modo a impossibilitar a apreensão prévia de significantes e significados. O texto do autor português possui uma direta relação com uma exterioridade (assunto a que retornarei de modo mais detalhado adiante) de modo que não há em Receita para me leremo tal conjunto de ingredientes que possam ser misturados com facilidade e posteriormente digeridos:

(…) as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma. A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana. Quem não entender isto aperceber-se-á apenas dos aspectos mais parcelares e menos importantes dos livros: o país, a relação homem-mulher, o problema da identidade e da procura dela, África e a brutalidade da exploração colonial, etc. temas se calhar muito importantes do ponto de vista político, ou social, ou antropológico, mas que nada têm a ver com o meu trabalho. (ANTUNES, 2002, p.109-10)

O narrador da crônica (talvez possamos considerá-lo o escritor António Lobo Antunes, presente de modo implícito) afirma na citação acima que os elementos que dão a forma de seus romances são apenas “pretextos de superfície” para conduzir a um “fundo avesso da alma”. Ora, se há um fundo avesso a que o leitor possa ser conduzido, os “pretextos de superfície”, que deveriam ser os ingredientes desta Receita para me leremnão funcionam, afinal, segundo o narrador, esses elementos, que são os “mais parcelares e menos importantes dos livros”, nada têm a ver com seus livros. Se nada têm a ver, não pode haver então uma Receita para me lerem. Pode haver, talvez, uma “viagem ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana”, que leitor e narrador devem percorrer juntos:

Disse em tempos que o livro ideal seria aquele em que todas as páginas fossem espelhos: reflectem-me a mim e ao leitor, até nenhum de nós saber qual dos dois somos. Tento que cada um seja ambos e regressemos desses espelhos como quem regresse da caverna do que era. É a única salvação que conheço e, ainda que conhecesse outras, a única que me interessa. (ANTUNES, 2002, p.111, destaques meus)

Essa jornada em companhia do narrador faz com que o leitor se apodere do texto, se sinta parte dele, pura interioridade no exterior que é o texto: “Peço-lhes que dêem por ela, compreendam que vos pertence e, além de compreender que vos pertence, é o que pode, no melhor dos casos, dar nexo à nossa vida” (ANTUNES, 2002, p.111, destaques meus). Anton Ehrenzweig (1977) diz que nossa mente observadora de superfície, por ter à disposição apenas as estruturas formais (Gestalt) articuladas, é incapaz de atingir as estruturas móveis e fluidas dissipadas nas camadas profundas da mente. Porém, as funções estéticas formais (som, cores, linguagem, etc.) podem permitir que a mente de superfície compreenda esse “negrume do inconsciente, raiz da natureza humana”, caverna do que éramos – mesmo que ele permaneça (e permanece) inatingível. Sua função diante dessa inatingibilidade, então, é dar nexo à vida – a arte como apaziguamento, consolo no angustiante percurso do homem em busca de si mesmo. No melhor dos casos.

II. O texto como exterioridade

Consideremos o narrador da crônica em questão uma “representação literária” do desejo do autor empírico – António Lobo Antunes – de falar acerca de seus romances, de sua escrita, enfim. Vimos no tópico anterior que esta escrita a que o narrador se refere é construída com elementos de superfície (pre-textos) no intuito de conduzir o leitor (numa viagem conjunta com o narrador) rumo a um negrume inatingível (inconsciente). Mas se esse negrume é inatingível e permanentemente disforme, como é possível percorrer um caminho em conjunto (narrador e leitor) se não há um objetivo a ser atingido, um porto seguro a ser alcançado?

Partindo da perspectiva postulada por Tatiana Levy (2003) de que, conforme o pensamento de Maurice Blanchot, a arte se realiza na irrealização (ou seja, faz-se necessária uma negação do real para construir uma irrealidade fictícia), parece-me que o narrador da crônica compartilha da perspectiva de que não há algo a ser atingido: o negrume permanecerá negrume, mas há um caminho percorrido (no caso, o texto) que poderá (e deverá) ser interpretado através das vozes e chaves que o constituem. “A pessoa tem de renunciar à sua própria chave aquela que todos temos para abrir a vida, a nossa e a alheia e utilizar a chave que o texto lhe oferece”. (ANTUNES, 2002, p.109)

Operando durante o exercício da leitura com as chaves interpretativas espalhadas e por vezes, escondidas ao longo do texto, o leitor se fará parte do fora, ou no mínimo terá acesso à exterioridade que é o texto:

Fora é o próprio espaço – mas um espaço sem lugar – da literatura. A experiência literária constrói o Fora ela é o próprio Fora. E isso precisa ficar claro desde já, pois o Fora não é o espaço onde a literatura se constrói, mas a própria literatura.Em outras palavras, literatura não é algo que se dê num espaço exterior ao mundo. Ela é o Fora, esse não-lugar sem intimidade, sem um interior oculto, onde o artista é aquele que perdeu o mundo e que também se perdeu, uma vez que já não pode mais dizer Eu. (LEVY, 2003, p.29)

Note-se que a postulação “sem um interior oculto” na citação confere total autonomia e, porque não, liberdade ao texto, e remete diretamente ao “negrume do inconsciente” de que trata o narrador, uma escuridão interior oculta, que permanecerá oculta por se ausentar do texto devido ao seu caráter hermético e inatingível.

Para além da discussão acerca do gênero literário, a crônica, essa perspectiva considerará a manifestação literária como uma exterioridade pura. Mas se há nessa exterioridade um negrume que deixa de estar, (ele se ausenta na exterioridade do texto) se há um lugar que se percorre e se presume atingir, mas não se atinge jamais, no que consiste então o valor do ato de ler? Vejamos.

O narrador afirmará no início da crônica que se decepciona quando alguém lhe diz que leu o seu livro. Ele nos informa que seus livros não são para ser lidos conforme o sentido usual que se dá à leitura: “(…) a única forma parece-me de abordar os romances que escrevo é apanha-los do mesmo modo que se apanha uma doença”. (ANTUNES, 2002, p.109) Apanhar essa exterioridade como doença remete à perspectiva Nietzsche / deleuziana de que todo fenômeno se estabelece como um sintoma. Vânia Azeredo (2002), ao explicar a busca nietzschiana pela origem do valor dos valores (e Nietzsche remete à cultura Ocidental de modo geral) nos diz que a possibilidade de interpretar e avaliar os sintomas (fenômenos) somente será possível a partir do estabelecimento desse sintoma (para ilustrar a referência, considero aqui o texto como doença que desencadeará um sintoma no leitor) como um jogo de forças, de potência a ser “apanhado” como doença (como afirma o narrador da crônica). É o apanhamento da doença do texto que possibilitará o desencadeamento dos sintomas (fenômenos), de modo que este desencadeamento é o fator que possibilitará a escuta da voz do corpo, inebriado das forças do texto, possibilitando então a viagem rumo ao negrume inatingível e ausente do texto, porém, origem e fim da exterioridade enquanto processo criativo. “Abandonem as vossas roupas de criaturas civilizadas, cheias de restrições, e permitam-se escutar a voz do corpo”. (ANTUNES, 2002, p.111) Tais restrições a que o narrador se refere na crônica podem ser interpretados como a exigência de hierarquização, a ordenação, a apoliniedade exigida pela tradição Ocidental – são restrições que negam o obscuro, a maldade, a desordem, que querem calar o corpo, enfim.

III. Conclusão: a morte do autor e o nascimento do leitor

Atingindo a exterioridade do texto, apanhando esse “fora” como doença, dando voz ao corpo e seus sintomas oriundos da “doença literária”, o narrador afirma não ter nenhuma pretensão de fazer com que o leitor se consuma no exercício que remete ao ermo profundo do ato da leitura, enquanto perpassa vozes e dialoga com a cultura. Recomenda apenas que se faça o caminho como num sonho:

Caminhem pelas minhas páginas como num sonho porque é nesse sonho, nas suas claridades e nas suas sombras, que se irão achando os significados do romance, numa intensidade que corresponderá aos vossos instintos de claridade e às sombras da vossa pré-história. E, uma vez acabada a viagem e fechado o livro convalesça. (ANTUNES, 2002, p.110)

Caminhando pela dimensão onírica e convalescendo da doença apanhada, o leitor terá voz entre as vozes do texto, mas vale ressaltar que o texto é para ser lido e apanhado, e o leitor não será consumido neste exercício, mas ao mesmo tempo, fará parte dele:

Exijo que o leitor tenha uma voz entre as vozes do romance ou poema, ou visão, ou outro nome que lhes apeteça dar a fim de poder ter assento no meio dos demônios e dos anjos da terra. Outra abordagem do que escrevo é limita-se a ser uma leitura, não uma iniciação ao ermo onde o visitante terá a sua carne consumida na solidão e na alegria. Isto não se tornará complicado se tomarem a obra como a tal doença que acima referi: verão que regressam de vocês mesmos carregados de despojos. (ANTUNES, 2002, p.110)

Esquivando-me da pretensão de encerrar a questão proposta por Manuel Gusmão (1998) no ensaio intitulado “Anonimato ou alterização?”, parece-me pertinente considerar que a perspectiva proposta por Barthes, de que “(…) a morte do autor paga-se com o nascimento do leitor” (BARTHES, 2004, p.64) indica realmente, como propõe o crítico português, um processo de alterização, pois o nome do autor realmente acaba por “se assinar” (conforme podemos notar na crônica estudada) dentro e fora do texto. Afinal, em meio à miríade de vozes que clamam no percorrer do texto, é a criação do autor e a leitura dessa manifestação artística que constituem o processo que verdadeiramente importa: “Reparem como as figuras que povoam o que digo não são descritas e quase não possuem relevo: é que se trata de vocês mesmos”. (ANTUNES, 2002, p.111)

Conforme Barthes (2004), podemos concluir que um texto é feito de escrituras múltiplas, diversas chaves culturais que se parodiam, se contestam, dialogam. E o local de encontro dessa multiplicidade não está no autor, conforme o narrador da crônica Receita para me lerem postula. Este local está no leitor, que é o alguém a quem se destina a escritura, é esse alguém que deve abandonar a faculdade de julgar em proveito da luminosidade inerente ao texto que passará a lhe pertencer para, na melhor das hipóteses, dar nexo à sua vida de leitor e auxiliar no apaziguamento da dor de sua existência.

Abstract

This paper studies the relation between the narrative and authorship voices in António Lobo Antunes’s chronicle “Receita para me lerem”, with the purpose of discussing the aesthetic function of a literary text considered as pure exteriority, as well as the implications of that perspective in the relation between reader and literature.

Key words: Author; Narrator; Reader; Aesthetics; António Lobo Antunes.

Referências

ANTUNES, António Lobo. Receita para me lerem. In: Segundo livro de crónicas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002. p.109-11.

AZEREDO, Vânia Dutra de. Bom e mau, bom e ruim. In: Nietzsche e a dissolução da moral. São Paulo: Discurso Editorial / Editora UNIJUÍ, 2000. p.47-90.

BARTHES, Roland. A morte do autor. In: O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 57-64.

EHRENZWEIG, Anton. Psicanálise da percepção artística: uma introdução à teoria da percepção inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: Estética: literatura e pintura, música e cinema. (Col. Ditos e escritos III) Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. p.264-98.

GUSMÃO, Manuel. Anonimato ou alterização? Revista Semear, Rio de Janeiro, nº.4, Abr/1998. Disponível em   http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/4sem_18.html Acesso em 06 jun. 2003.

LEVY, Tatiana Salem. A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Pró-Reitoria de Graduação. Sistema de Bibliotecas. Padrão PUC Minas de normalização: normas da ABNT para apresentação de trabalhos científicos, teses, dissertações e monografias. Belo Horizonte, 2004. Disponível em   http://www.pucminas.br/biblioteca/normalização_monografias.pdf

Simpatia, entusiasmo, empatia e alteridade

In a vida e a literatura on December 12, 2009 at 8:52 pm

Costumo dizer para o meu amigo Taprógoras que é no mínimo muito estranho como às vezes parece que o mundo está falando conosco. Não vou nem tentar me enveredar pelo misticismo, pela poesia ou pelo sentimento religioso, porque mambembe como sou, não dou conta destas leituras – só as pessoas muito especiais têm acesso a esse sentimento mágico do mundo. Eu tenho sincera admiração (e inveja!) de místicos, poetas e religiosos.

Mas minha vida inteira sempre tomou rumos inusitados de maneiras misteriosas. Mesmo desatento, mesmo errando, mesmo mergulhado em meu egoísmo e repleto do meu rancor com as pessoas. Mesmo ressentido com uma vida que, no fundo não deveria me trazer esse tipo de sentimento. Perceber essas coisas todas em mim e ao meu redor, foi me despertando aos poucos, foi me fazendo ter vontade de mudar, de fazer algo relevante. O que quer que isso seja, o que quer que isso signifique.

O grande desafio do cotidiano talvez seja justamente esse: até que ponto você está bem consigo mesmo e com os outros, de modo a desejar viver esta mesma vida, da forma como você a vive, inúmeras e repetidas vezes?

A pergunta não é minha. Foi feita por Nietzsche no famigerado aforismo 341 d’A Gaia Ciência:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!” – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!”.
Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”

O desafio é tremendo: a condenação do dáimon do Nietzsche possui uma implicação ética (jamais moral, no entanto) primeva – se tudo vai se repetir tal e qual, eu teria que estar bem comigo mesmo, bem com os outros, bem com a forma com que conduzo minha vida.

No filme cujo cartaz ilustra o post, Groundhog day (no Brasil, Feitiço do tempo), o personagem de Bill Murray é um repórter do tempo arrogante, egoísta, self-centered bastard. Ele e sua equipe são enviados para cobrir um evento numa cidade no interior pelo quarto ano consecutivo. Claro, ele está de saco cheio. Porém, após o evento,  de maneira inusitada, ele fica preso na cidade por causa de uma tempestade de neve e acorda todos os dias no dia 2 de Fevereiro, e os eventos do dia se repetem exatamente iguais.

Bill Murray chega até a se matar de diversas maneiras, mas em vão. No outro dia, às 6 da manhã, é dia 2 de Fevereiro de novo, e ele tem que carregar o peso da repetição, tintim por tintim, dos fatos do dia 2.

Demora, mas Bill Murray aos poucos vai descobrindo a empatia e desenvolvendo a alteridade: antes, ele se valia do conhecimento sobre os fatos do dia 2 para tirar vantagem das pessoas ao seu redor – posteriormente, ele começa a se colocar no lugar do outro, a compreender suas angústias e medos. Só que como ele tem o poder de saber que os eventos irão se repetir identicamente ao dia anterior, ele passa a usar o que sabe para ajudar as pessoas que antes ele não via, ou se recusava a ver.

É óbvio que tal exercício é, de maneira estrita, impossível. Mas não seria maravilhoso se pudéssemos ao menos tentar viver como a enxergar o outro como alguém demasiado humano, com todas suas fraquezas e limitações, medos e angústias, mas também com toda sua capacidade filantrópica, toda sua beleza inerente ao mistério de existir?

Não há uma receita para viver bem. Mas buscar viver bem, exercitar a empatia e a alteridade despertam mais duas coisas que andam meio ausentes na Geração Y: a simpatia e o entusiasmo. Sempre gostei dos significados gregos destas palavras. Simpatia em grego significa co-vibração. Entusiasmo significa ter um deus dentro de si. Só pra ficar claro: significa ter UM deus, e não ter deus. Significa ter algo que lhe dê ânimo.

Bill Murray, após passar pelas etapas todas no filme, (empatia, alteridade, simpatia, entusiasmo) passa a querer extrair o máximo da vida: aprende a tocar piano, salva vidas, se declara pra mulher que ama, alimenta um mendigo. Mas ele sabe tudo que vai acontecer, ele é prisioneiro do dia 2 de Fevereiro.

Fica então o convite pra reflexão: porque não podemos simplesmente fazer o melhor possível, como se não houvesse amanhã, como se todo dia fosse , como no filme, o último dia das nossas vidas? Teríamos um preço a pagar por isso? Ganhamos ou perdemos em girar ao nosso próprio redor pra sempre?

Porque, sinceramente – estamos programados para ignorar as contingências, eu sei. Mas elas são a maior força da natureza – estão aí. Todo dia é o último das nossas vidas. Nada vai ser mais igual. Cada chance é única, e estar atento é dificílimo. Enquanto você lê esse post, os minutos passados jamais voltarão.

***

Pra quem quiser pensar mais a respeito e fazer travessias numa conversa interessante, deem uma passada lá no Alex e vejam a série que ele anda produzindo sobre empatia.

***

Escrito e publicado em 12/12/2009