Tradução por Manuel Carreiro para excertos do conto “Good old neon”, de David Foster Wallace, do livro “Oblivion”. págs.141-181.
Observação: este texto é apenas o agrupamento de partes do conto que resolvi destacar. Não há nenhuma pretensão de apresentar o texto como se ele fosse uma tradução fiel – o que lhes é apresentado a seguir é mais uma série de recortes, uma trescriação do que um texto conexo.
esta tradução é dedicada para meus amigos
A minha vida inteira, fui uma fraude. Não estou exagerando. O que tenho feito a maior parte do tempo foi tentar criar uma certa impressão de mim mesmo para as pessoas. Para que elas gostem de mim, ou me admirem. Talvez seja um pouco mais complicado que isso. Mas quando você para pra pensar, tudo se resume na busca para que gostem de você, te amem. Que tenham admiração, que te aprovem, que te aplaudam, tanto faz.
Me neguei a experimentar antidepressivos, eu não conseguia ver a mim mesmo tomando pílulas para tentar ser uma fraude menor do que eu era. Eu pensava que, se elas funcionassem, como saberia se eu era eu mesmo ou as pílulas? Naquele tempo, eu já sabia que era uma fraude. Eu sabia qual era o meu problema.
Ninguém jamais fez algo de ruim para mim, cada problema que enfrentei, fui eu que o causei. Eu era uma fraude, e o fato de que eu era solitário era minha própria culpa (é claro que os ouvidos dele se mexeram ao ouvir fraude, que é um termo carregado) porque eu parecia ser tão centrado em mim mesmo e fraudulento que experimentei tudo em termos de como as pessoas me viam e o que eu precisava fazer para criar uma impressão de mim que eu queria que as pessoas tivessem.
Eu estava dizendo que eu me sentia como se estivesse preso na armadilha deste falso modo de ser, e era incapaz de ser totalmente aberto e dizer a verdade independentemente disso me permitir ou não olhar as pessoas novamente nos olhos. De alguma maneira, resignadamente, eu disse sim, e isso fez com que a parte fraudulenta e calculista do meu cérebro ficasse perdida o tempo todo, como se estivesse contantemente jogando xadrez com alguém e tentando descobrir se eu poderia fazer esse alguém mover suas peças de certo modo que eu o induzisse a se mexer para outro lado.
O paradoxo da fraudulência é que quanto mais tempo e esforço você gasta tentando impressionar ou atrair outras pessoas, menos impressionante e atraente você se sente por dentro – afinal, você é uma fraude. E quanto mais fraude você se sente, mais você tenta conduzir uma imagem adorável de si mesmo para que as outras pessoas não descubram que pessoa oca, fraudulenta você realmente é.
Não, não foi o episódio da tigela quebrada que originou ou causou minha fraudulência, tampouco algum tipo de trauma de infância que nunca superei e deveria fazer análise para superar. A minha parte fraudulenta sempre esteve lá, como uma peça de quebra-cabeças – falando objetivamente, é uma verdadeira peça de quebra-cabeças muito antes de você descobrir como ela se encaixa perfeitamente em você.
O que ocorre dentro de nós é tão rápido, tão grandioso e tão totalmente conectado para que as palavras consigam meramente rascunhar as entrelinhas de uma pequena parte que seja de qualquer instante dado. A velocidade do pensamento e das idéias, memórias, realizações, emoções e assim por diante é ainda mais veloz – exponencialmente veloz, inimaginavelmente veloz – quando você está morrendo, criando sentidos durante aquele pequeno minúsculo nanosegundo entre o momento onde você tecnicamente morre e o que vem depois - então aquela coisa clichê de que a vida inteira passa diante dos nossos olhos no momento da morte é mais ou menos isso – embora o termo “vida inteira”, aqui, não seja uma coisa sequencial, onde primeiro você nasce, depois vai para o berço, depois você está no centro das atenções do jogo de baseball, etc., que acaba sendo tudo o que as pessoas se lembram quando dizem “minha vida inteira” – isso significando uma discreta e cronológica série de momentos que eles acrescentam e chamam de o tempo de suas vidas.
Palavras e tempo cronológico criam todos esses desentendimentos acerca do que está realmente acontecendo no nível mais básico. E ainda assim, nossa língua é tudo que temos para tentar compreender e tentar formar algo maior ou mais significativo e verdadeiro do que qualquer outra pessoa, o que é um outro paradoxo.
Dr. G me diria depois que o fenômeno da “vida inteira passando no final” é mais algo como aquela faixa branca na superfície do oceano, ou seja, esse é o único momento em que você se acalma de fato e escorrega de volta para aquilo que você nem sabe que é um oceano.
O que quero dizer é que não importa o que você pensa a meu respeito – porque, apesar das aparências, o que você pensa não tem nada a ver com o que eu realmente sou.
O fato é que nós todos somos solitários, é claro. Todo mundo sabe disso, é quase um clichê.
Um corolário para o paradoxo da fraudulência é que você simultaneamente quer enganar todo mundo que encontra e ainda quer, de alguma maneira, encontrar alguém que é seu igual, seu par, e que não pode ser enganado.
Na verdade, eu parecia não ter “eu” interno verdadeiro, e quanto mais eu me esforçava para ser genuíno, mais vazio e fraudulento eu acabava me sentindo por dentro, (o que não contei para ninguém até fazer análise com o Dr. Gustafson).
Medindo os tipos de coisas que seus superiores querem acreditar (inclusive a crença de que eles são mais espertos do que você, e é por isso que são seus superiores) – uma das piores coisas sobre a concepção de competitividade, “masculinidade orientada por conquistas” que a América supostamente introjetou em seus machos, foi que a competitividade causou um certo estado de medo de que o amor genuíno seja impossível. E talvez a real causa do meu problema não seja fraudulência, mas uma básica incapacidade de amar de verdade.
Mesmo que a minha fraudulência e incapacidade de amar sejam basicamente a mesma coisa, ser incapaz de amar de verdade pelo menos era um modelo diferente, ou talvez uma lente diferente através do qual eu via o problema, e ainda parecia como uma forma de prometer atacar o paradoxo da fraudulência em termos de reduzir a parte do ódio que tenho por mim mesmo, que reforçava o medo e a consequente tentativa de manipular as pessoas para que elas dessem toda a aprovação de que eu precisava.
Eu estava me matando porque eu era essencialmente uma pessoa fraudulenta que parecia ter uma lacuna de caráter e força para encontrar um modo de parar, mesmo depois de perceber que minha fraudulência cobrava um preço altíssimo. Também percebi que, quando tudo estivesse dito e feito, eu nada mais era do que um jovem rico e bem-sucedido de passagem, incapaz de amar – e descobri que não suportava a banalidade deste “eu” insuportável – afinal, eu era tão vazio e inseguro que eu tinha uma necessidade patológica de me enxergar como alguém de alguma maneira excepcional ou fora de série, todo o tempo.
O filósofo alemão Kant estava certo a esse respeito – nós, seres humanos, somos muito parecidos no que tange às nossas configurações básicas. Embora sejamos ligeiramente conscientes disso, somos basicamente expressões de nossos diretórios evolucionários, e esses diretórios são expressões de forças infinitamente maiores e mais importantes do que nós somos. Basicamente, eu estava num estágio onde o homem percebe que tudo que ele vê o ultrapassa. Como construção linguistica, sei que isso é clichê. Mas no estado em que me encontro, esta consciência é algo mais, acredite.
Então chore o que quiser – não contarei para ninguém. A verdade é que morrer não é ruim, mas dura para sempre. E aquele sempre não é tempo algum. Sei que parece uma contradição, ou talvez mero jogo de palavras. O que quer que seja, funciona – e é uma questão de perspectiva.
No fim, temos a parte mais duradoura, mais real e sentimental de nós fazendo a outra parte ficar em silêncio, como se estivessem nivelados olho no olho e dizendo, quase gritando: “nem mais uma palavra”.





