manuelcarreiro

Um ser imortal e perfeito: interpretando o dragão de Escher (e além!)

In a vida e a literatura on January 20, 2010 at 8:48 pm

Para o amigo Wellington Machado, muito tempo depois

Já perguntei para muitas pessoas o que elas veem quando olham para o Dragão de Escher (1925). Obtive as respostas mais variadas, mas notei um elemento comum nas análises das pessoas: todos que perguntei disseram perceber a manifestação de algum tipo de arrogância, prepotência.

Essa arrogância que meus interlocutores viram na figura deveu-se a diversos fatores. Alguns disseram que o Dragão por si só é uma figura imponente e arrogante, outros disseram que o Dragão está pisando em cristais preciosos, houve ainda um grupo que disse que o Dragão era arrogante porque contentava-se em morder o próprio rabo. Um amigo me disse que o Dragão fora castigado por sua inerente arrogância e, como pena, foi condenado a morder o próprio rabo eternamente. Quase uma fábula medieval, pensei!

Acho que a idéia básica todo mundo capta de imediato: há um certo paradoxo na figura, algo que convida a nos demorar um pouco mais nela. Demorando-nos, pensamos primeiro que dragões não existem, então criamos um conceito para ilustrar algum tipo de antropomorfismo que possa saciar a nossa curiosidade. Mas do que trata, então, o Dragão de Escher? Como toda obra de arte soberana, o Dragão dialoga com o que há de essencial na nossa cultura ou seja, uma tentativa intrincada (portanto inteligente) de ler a nossa condição.

No livro Trickster makes this world (que eu traduzo livremente como O bufão engendra este mundo), Lewis Hyde nos conta que, segundo a teoria evolucionista, a tensão entre predador e presa é o “motor” que originou a criação da inteligência. Tanto a presa quanto o predador foram criando artifícios (artes) – um para se alimentar, ou outro para escapar e sobreviver.

Em muitos mitos norte-americanos, diz Hyde, o hábito que o corvo tem de coçar as próprias pernas com o bico foi visto como uma tentativa da ave de comer a si própria, principalmente porque o corvo sempre abre feridas em suas pernas. (Note que o Dragão do artista holandês possui finas pernas e patas que lembram as de uma ave). O corvo é representado nestas mitologias como uma ave insaciável. Num tempo onde o homem não precisava trabalhar para garantir o seu sustento, a insaciabilidade do corvo o levou a pregar peças nos seres humanos para se alimentar. Roubando o alimento dos homens, o corvo os forçou a ter que trabalhar para produzir e guardar o seu sustento.

A partir de então, engendrou-se um círculo vicioso: se a necessidade de se alimentar criou a inteligência, a inteligência gerou um pragmatismo que é absolutamente incapaz de saciar a eterna fome humana. Criamos artifícios para sobreviver, perdemos o objeto ou nos saciamos dele momentaneamente, apenas para criar novos desejos. Há sempre o objet petit a, como diz Lacan, para criar em nós “novas fomes”, novos desejos. Note o corpo do Dragão. O entrelaçamento do corpo com a cauda forma uma lemniscata, o símbolo do infinito. Pode ser que a presença da lemniscata aponte para a nossa  infinita insaciedade, e o Dragão represente a nossa prepotência, como disseram alguns amigos, em achar que podemos nos afirmar como soberanos na existência. (A esse respeito, não me canso de recomendar o engraçadíssimo texto de Nietzsche “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral”).

É também interessante observar que jamais vemos como o corpo e a cauda se entrelaçam – a cauda simplesmente aparece como se saísse de uma “caixa mágica”, do meio do corpo do Dragão. Talvez seja mais fácil observar o quadrado a que me referi como “caixa mágica” na versão em cores da obra:

Como diz Valéry (citado a partir do livro de Hyde): “o fundo da mente é pavimentado por encruzilhadas”. Mas jamais vemos os entrecruzamentos.

Observe também que o centro do corpo do Dragão parece uma escada, e que a cabeça do Uroboro também sai de uma espécie de caixa, ou degrau da escada. Será uma representação gráfica para o anteriormente citado mito da criação da inteligência? O rabo talvez possa ser lido como um degrau inferior, e a cabeça, invólucro da inteligência, um (de)grau superior na escala evolucionária.

Além disso tudo, o Uroboro, ou o Dragão que come a si próprio, foi lido por Platão (no Timeu) como o primeiro ser vivo do universo. Um ser imortal e perfeito.

A figura do Uroboro está presente nas mais diversas culturas ao redor do globo.

Agora vamos desdobrar a leitura do Uroboro na representação do Caduceus. Observe bem as seguintes imagens:

Note que tanto no imponente (e aterrador) Dragão de William Blake, quanto nas estátuas de Hermes e na figura de Hermes ilustrada num vaso grego, podemos observar duas serpentes (talvez dragões?) aparentemente ameaçando uma a outra.

O Caduceus geralmente é confundido com o símbolo de Asclépio, que simboliza a cura e portanto as “artes médicas”.

A presença das serpentes de corpo encaracolado que culminam por se confrontar, pode remeter ao choque entre os instintos, ansiosos por se afirmar na existência, ou seja, ansiosos por se alimentar.

Não é por acaso que o Caduceus está na ponta da lança de Hermes – o mensageiro e bufão-mor da mitologia grega. Hermes é o guia para o psychopompós, ou seja, o mundo das almas para os gregos. O choque entre os instintos gera o conhecimento, e o conhecimento gera a consciência da nossa finitude, a consciência de uma dimensão inaudita, essencial, inatigível, num movimento infinito como o do Uroboro de Escher, cuja parte consciente está sempre mordendo a sua “planta baixa”, para sempre pisando o solo belo porém rochoso daquilo que recortamos como a realidade possível, legível.

A “pegadinha” ou, em termos mais apropriados, o truque (em inglês, trick, que origina Trickster) de Escher é justamente esse: criamos coisas irreais, lemos, representamos, apenas para falar de nós mesmos, da nossa condição. O Dragão de Escher pode ser lido como uma imagem fictícia que fala sobre a nossa condição e, porque não, da nossa prepotência e condenação – tudo que nos resta é morder o próprio rabo. Morder o próprio rabo e criar é essencial, porque se a fome cria a inteligência e portanto, a arte, é a arte que vai nos revelar a plenitude. E cabe ao artista encontrar as dobras, os poros, e estabelecer as conexões do nosso mundo com o outro. Apenas para nos maravilharmos com o mistério, o que convenhamos – já basta.

***

Agradecimentos:

Agradeço aos “acasos” do mundo que me levaram a David Foster Wallace, que me levou a Lewis Hyde, que me levou de volta à mitologia, que me fez pesquisar a Grécia antiga novamente e voltar a Nietzsche, Foucault, Gustavo Bernardo e conversas que tive com meus antigos alunos. As conversas, rascunhos, leituras e releituras resultaram neste texto que tive muito prazer em escrever. Prazer que eu não tinha há tempos!

A leitura de Lewis Hyde me ensinou que o desprendimento e o desenvolvimento da não-intencionalidade frente aos eventos do mundo, nos possibilitam ver toda a magia ao nosso redor, e a apreciar essa magia completamente, porque cada novo dia é um dia repleto de novos eventos, e se formos desprendidos e inventivos o suficiente, a existência poderá se justificar como a mais bela obra de arte – e é nos dada de graça, mesmo cobrando o preço de a conduzirmos.

Esta forma de celebrar o cotidiano me fez colocar, dois parágrafos acima, a palavra acasos entre aspas. Pra quem descobre a alegria de deixar o mundo acontecer ao seu redor e dentro de si, a palavra acaso deixa de ter significado real.

Agradeço ao Wellington, que pediu esse texto no início do ano, e foi paciente comigo.

As minhas leituras e interpretações são limitadas pelo meu sempre pouco conhecimento da cultura clássica. Quem se disponibilizar a dialogar com o texto será sempre bem-vindo.

Para continuar a conversa com este texto, visite:

*Site oficial de M.C. Escher

*Perfil de Escher na Wikipedia

*Diversos textos sobre paradoxos, filosofia, literatura e outras artes em Dubito ergo sum, de Gustavo Bernardo

*Site oficial de Lewis Hyde, em inglês

e / ou escreva um comentário na página anterior

*Texto rascunhado entre Março e Dezembro de 2009, publicado em 20/12/2009