O artista apela à parte do nosso ser que é um dom, e não uma aquisição – e, portanto, é a nossa parte mais perene.
Joseph Conrad
Publiquei prematuramente. Desde criança eu tinha verdadeira paixão por livros e gibis. Quando comecei a montar uma coleção para mim, o meu pai me perguntou se eu só colecionaria coisas que os outros escreviam, ou se também escreveria minhas próprias coisas. Então comecei a escrever e desenhar meus próprios gibis e também a escrever e ilustrar meus livrinhos de aventuras.
Certo dia resolvi mostrar um desses meus livrinhos para a minha professora de português. Naquele tempo, eu ainda estava aprendendo a nova língua (sou falante nativo do inglês). Dei o livro para minha professora e pedi a ela para corrigi-lo. Algumas semanas depois, ela me disse que o colégio gostou muito da iniciativa e queria publicar o meu livro.
Recebi uma menção honrosa do Colégio, tive que reescrever o livro e desenhar novas ilustrações. Tive uma tarde de autógrafos. Fui aplaudido no “momento cívico”. Todos os estudantes da minha série ganharam um livrinho. As outras séries receberam um livrinho por turma. O livro foi parar na Bolívia, acho que também no Uruguai, onde o Colégio tinha outras unidades. Minha mãe me deu de presente uma Olivetti portátil. O resultado: eu nunca mais quis escrever.
Hoje eu não consigo me lembrar bem o que eu senti. Mas sei que a exposição me incomodou muito. O livro era baseado nos personagens que travavam diálogos na minha cabeça. Eu ficava horas no quarto criando histórias e desenhando. Era tudo muito pessoal para compartilhar com outras pessoas. Uma coisa era mostrar os meus gibis e livrinhos pros meus pais, minha irmã, meus tios. Outra coisa era centenas de desconhecidos lerem esses diálogos que eu criava.
Só voltei a escrever ficção quando fui estudar Filosofia. Fiz um trato comigo mesmo de, à parte o excesso de textos teóricos com os quais nos defrontamos no ensino superior, sempre ler e escrever ficção. Assim, arrisquei alguns contos em jornaizinhos de diretórios acadêmicos, publiquei algumas ilustrações e tirinhas em quadrinhos. Descobri o ensaio e comecei a arriscar algumas opiniões. Tudo muito ruim, mas de certa maneira eu não tinha mais vergonha. Eu começava a ter meus primeiros interlocutores, e isso me motivava a expor os escritos ainda mais.
Em 2004, colecionei alguns desses contos e reuni num livrinho. Tudo muito ruim. Hoje, eu tiraria 2 contos desse livro que publiquei e reescreveria. O resto eu simplesmente jogaria fora. Mas a experiência de ter um livro publicado foi muito interessante. Depois de encontrar uma editora pequena que praticamente não tinha esquema de distribuição, escrevi um projetinho sobre a função social da literatura pra conseguir acesso a um financiamento para o meu livro. As vendas pagaram o financiamento e também financiaram a montagem da minha biblioteca. Se não fiquei rico, usufruí bem do dinheiro das vendas. Mas eu achava estranho vender o meu livro.
A experiência também foi boa para encontrar mais interlocução. O livro foi adotado em cerca de três escolas, e os encontros com os estudantes leitores foram extremamente positivos. Se eu publicaria o livrinho de novo? Não. Pra ser honesto, tenho vergonha desse livro, o Eram os deuses escritores?, de 2004. Não é que eu tenha ficado exigente, não é o mercado editorial. O livro é simplesmente ruim mesmo. Mas o ato da publicação em si, foi muito positivo. Se eu não tivesse publicado em 2004, jamais me perguntaria hoje: pra quê publicar?
A coisa ganha em intensidade com a minha súbita profissionalização na área. De repente encontro-me traduzindo um livro, negociando contratos de tradução no Brasil e na Alemanha, terminando uma nova coleção de contos do qual não me envergonho nem um pouco.
E assim, os limites e as fronteiras entre o ato de produzir arte e o momento de tornar a obra de arte num produto para ser consumido torna-se um problema.
Apenas para exemplificar: estou trabalhando n’Os pequenos deuses da trapaça, o meu novo livro de contos, há cerca de quatro anos. Ainda vou levar alguns meses para finalizar 3 dos 9 contos que o compõem. É um trabalho meticuloso, cuidadoso. Escrevo e reescrevo cada palavra com muito zelo. E é um trabalho ao mesmo tempo prazeroso e doloroso. Me deixa muito cansado, porque cada palavra ali é uma gota de sangue. Se o livro peca por ser extremamente pretensioso, ele se redime na sua sinceridade. Se muitos vão dizer que ele é um tratado chato sobre paradoxos e enigmas (os leitores preguiçosos vão dizer que ele é muito “acadêmico”), outros vão entrar na brincadeira e perceber o quão sincero ele é. Mas sempre que tiro algumas horas para trabalhar em algum conto, eu me pergunto: como vou publicar este livro? E mais: vale a pena publicá-lo? O que eu quero ao publicá-lo? Qual o objetivo de tornar algo tão pessoal público? O que eu escrevo tem valor financeiro? Porque? É importante atribuir valor ao que escrevo? Que tipo de valor? Econômico? Moral? Pessoal? Quero ser premiado? O que escrevo tem alguma função social? Posso mudar a vida de alguém? Posso mudar o mundo? Quero só deixar algum recado antes de morrer? Uma marca?
São muitas as questões – alguns problemas importam, outros são falsos problemas. Algumas perguntas serão respondidas e outras lidarão para outras perguntas. Algumas questões serão reformuladas.
A caixa de comentários, claro, está aberta e ávida por suas reflexões. A série se desdobra ao longo do ano. Fique de olho.
*O quadro que ilustra o artigo é “Valores pessoais”, de René Magritte.
Estante:
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Anti-Oedipus: capitalism and schizophrenia. New York: Penguin Classics, 2009.
DONOGHUE, Frank. The last professors: the corporate university and the fate of the humanities. New York: Fordham University Press, 2008.
FOUCAULT, Michel. The order of things: an archaeology of the human sciences. New York: Vintage, 1994.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREUD, Sigmund. Civilization and its discontents. New York: Norton, 1989.
HYDE, Lewis. The gift: creativity and the artist in the modern world. New York: Vintage, 2007.
ZIZEK, Slavoj. The plague of fantasies. New York: Verso, 2008.


