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Archive for February, 2010

Arte e capitalismo: uma introdução

In a literatura e a vida, a vida e a literatura on February 23, 2010 at 1:59 pm

O artista apela à parte do nosso ser que é um dom, e não uma aquisição – e, portanto, é a nossa parte mais perene.

Joseph Conrad

Publiquei prematuramente. Desde criança eu tinha verdadeira paixão por livros e gibis. Quando comecei a montar uma coleção para mim, o meu pai me perguntou se eu só colecionaria coisas que os outros escreviam, ou se também escreveria minhas próprias coisas. Então comecei a escrever e desenhar meus próprios gibis e também a escrever e ilustrar meus livrinhos de aventuras.

Certo dia resolvi mostrar um desses meus livrinhos para a minha professora de português. Naquele tempo, eu ainda estava aprendendo a nova língua (sou falante nativo do inglês). Dei o livro para minha professora e pedi a ela para corrigi-lo. Algumas semanas depois, ela me disse que o colégio gostou muito da iniciativa e queria publicar o meu livro.

Recebi uma menção honrosa do Colégio, tive que reescrever o livro e desenhar novas ilustrações. Tive uma tarde de autógrafos. Fui aplaudido no “momento cívico”. Todos os estudantes da minha série ganharam um livrinho. As outras séries receberam um livrinho por turma. O livro foi parar na Bolívia, acho que também no Uruguai, onde o Colégio tinha outras unidades. Minha mãe me deu de presente uma Olivetti portátil. O resultado: eu nunca mais quis escrever.

Hoje eu não consigo me lembrar bem o que eu senti. Mas sei que a exposição me incomodou muito. O livro era baseado nos personagens que travavam diálogos na minha cabeça. Eu ficava horas no quarto criando histórias e desenhando. Era tudo muito pessoal para compartilhar com outras pessoas. Uma coisa era mostrar os meus gibis e livrinhos pros meus pais, minha irmã, meus tios. Outra coisa era centenas de desconhecidos lerem esses diálogos que eu criava.

Só voltei a escrever ficção quando fui estudar Filosofia. Fiz um trato comigo mesmo de, à parte o excesso de textos teóricos com os quais nos defrontamos no ensino superior, sempre ler e escrever ficção. Assim, arrisquei alguns contos em jornaizinhos de diretórios acadêmicos, publiquei algumas ilustrações e tirinhas em quadrinhos. Descobri o ensaio e comecei a arriscar algumas opiniões. Tudo muito ruim, mas de certa maneira eu não tinha mais vergonha. Eu começava a ter meus primeiros interlocutores, e isso me motivava a expor os escritos ainda mais.

Em 2004, colecionei alguns desses contos e reuni num livrinho. Tudo muito ruim. Hoje, eu tiraria 2 contos desse livro que publiquei e reescreveria. O resto eu simplesmente jogaria fora. Mas a experiência de ter um livro publicado foi muito interessante. Depois de encontrar uma editora pequena que praticamente não tinha esquema de distribuição, escrevi um projetinho sobre a função social da literatura pra conseguir acesso a um financiamento para o meu livro. As vendas pagaram o financiamento e também financiaram a montagem da minha biblioteca. Se não fiquei rico, usufruí bem do dinheiro das vendas. Mas eu achava estranho vender o meu livro.

A experiência também foi boa para encontrar mais interlocução. O livro foi adotado em cerca de três escolas, e os encontros com os estudantes leitores foram extremamente positivos. Se eu publicaria o livrinho de novo? Não. Pra ser honesto, tenho vergonha desse livro, o Eram os deuses escritores?, de 2004. Não é que eu tenha ficado exigente, não é o mercado editorial. O livro é simplesmente ruim mesmo. Mas o ato da publicação em si, foi muito positivo. Se eu não tivesse publicado em 2004, jamais me perguntaria hoje: pra quê publicar?

A coisa ganha em intensidade com a minha súbita profissionalização na área. De repente encontro-me traduzindo um livro, negociando contratos de tradução no Brasil e na Alemanha, terminando uma nova coleção de contos do qual não me envergonho nem um pouco.

E assim, os limites e as fronteiras entre o ato de produzir arte e o momento de tornar a obra de arte num produto para ser consumido torna-se um problema.

Apenas para exemplificar: estou trabalhando n’Os pequenos deuses da trapaça, o meu novo livro de contos, há cerca de quatro anos. Ainda vou levar alguns meses para finalizar 3 dos 9 contos que o compõem. É um trabalho meticuloso, cuidadoso. Escrevo e reescrevo cada palavra com muito zelo. E é um trabalho ao mesmo tempo prazeroso e doloroso. Me deixa muito cansado, porque cada palavra ali é uma gota de sangue. Se o livro peca por ser extremamente pretensioso, ele se redime na sua sinceridade. Se muitos vão dizer que ele é um tratado chato sobre paradoxos e enigmas (os leitores preguiçosos vão dizer que ele é muito “acadêmico”), outros vão entrar na brincadeira e perceber o quão sincero ele é. Mas sempre que tiro algumas horas para trabalhar em algum conto, eu me pergunto: como vou publicar este livro? E mais: vale a pena publicá-lo? O que eu quero ao publicá-lo? Qual o objetivo de tornar algo tão pessoal público? O que eu escrevo tem valor financeiro? Porque? É importante atribuir valor ao que escrevo? Que tipo de valor? Econômico? Moral? Pessoal? Quero ser premiado? O que escrevo tem alguma função social? Posso mudar a vida de alguém? Posso mudar o mundo? Quero só deixar algum recado antes de morrer? Uma marca?

São muitas as questões – alguns problemas importam, outros são falsos problemas. Algumas perguntas serão respondidas e outras lidarão para outras perguntas. Algumas questões serão reformuladas.

A caixa de comentários, claro, está aberta e ávida por suas reflexões. A série se desdobra ao longo do ano. Fique de olho.

*O quadro que ilustra o artigo é “Valores pessoais”, de René Magritte.

Estante:

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Anti-Oedipus: capitalism and schizophrenia. New York: Penguin Classics, 2009.

DONOGHUE, Frank. The last professors: the corporate university and the fate of the humanities. New York: Fordham University Press, 2008.

FOUCAULT, Michel. The order of things: an archaeology of the human sciences. New York: Vintage, 1994.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREUD, Sigmund. Civilization and its discontents. New York: Norton, 1989.

HYDE, Lewis. The gift: creativity and the artist in the modern world. New York: Vintage, 2007.

ZIZEK, Slavoj. The plague of fantasies. New York: Verso, 2008.

 

Monte verità: minha primeira tradução de um romance

In a literatura e a vida on February 11, 2010 at 11:42 pm

Está pronta a minha tradução do português para o inglês do mais recente romance de Gustavo Bernardo. Sinto-me imensamente feliz, porque sou um admirador confesso do autor. O Gustavo, inclusive, autorizou e apoiou a tradução. O livro é excelente, e sinceramente espero que a tradução esteja à altura.

Agora, seguem as conversas para publicá-lo. Aguardem novidades para os próximos meses. Por ora, segue uma prévia:

Monte Verità: the hill of truth (Monte verità. Rio de Janeiro: Rocco, 2009) Escrito por Gustavo Bernardo, traduzido por Manuel Carreiro (2010)

Novidades sobre o lançamento nos próximos meses.

In the instant that the last word of the report could be read and heard, the little comet, not that little, explodes above Brazil – specifically, right above the city of Rio de Janeiro. That’s why the city is the very first one to get the snow.

The explosion can’t be heard, but can be seen. Traces of white dust spread around from the detonation coordinates until it covers the entire globe, and then it falls gently, covering the planet. The white dust is sort of a very thin and clean snow that falls all over. Before it falls, though, it looks like it absorbs all the light from the Sun and the Earth, and reflects their light like a giant and silent kaleidoscope.

In all places, people are with their mouths wide open and their heads turned up, watching the unusual spectacle. Young couples, unstable with the perspective of not being able to have children for the next ten years, embrace themselves strongly affected, crying. Fathers and mothers do the same with their little children, feeling them so rare and delicate as what they see around themselves. Only the inhabitants close to the poles, used to the northern lights, have seen something similar in their lives. As soon as the white dust goes down, the exhibition of colors terminates and everyone identifies the snow, which a lot of people only knew from Christmas cards.


O Bergman que eu vi

In a vida e a literatura on February 2, 2010 at 5:26 pm

Tive muita sorte em ver meu primeiro filme de Ingmar Bergman (1918-2007) no cinema. Sim, há quem diga que o cinema não faz diferença, mas para mim, a sala, a tela gigante, o som alto fazem toda diferença. Estes recursos permitem que os filmes sejam capazes de apelar à minha sensibilidade de uma maneira decisiva.

De antemão, peço desculpas aos críticos de cinema – este espaço deveria, talvez, ser deles. Não sei nada sobre aspectos técnicos do cinema, sou incapaz de dar veredicto sobre uma boa ou má atuação — limito-me, apenas, a relatar como o cinema funciona para mim, ou melhor, como o cinema funciona em mim.

Era ano-novo, se não me falha a memória, primeiro de janeiro de 1998. Eu e alguns velhos amigos nada tínhamos para fazer, e alguém sugeriu que fôssemos ao cinema. Eu ainda morava em Belo Horizonte. Consultei o caderno de cultura do jornal Estado de Minas, e descobri então, na seção de cinema, um filme sueco, lançado em 1956, cotado com cinco estrelinhas! Resolvi ler então a sinopse, que me chamou a atenção: “Cavaleiro retorna das cruzadas e encontra a Europa devastada pela fome e peste negra. Enquanto busca um sentido para a sua vida, joga xadrez com a morte”. O tema me deixou espantado! A idéia de jogar com a morte enquanto busca-se um sentido para a vida era simplesmente estonteante! Até então só conhecia filmes do mainstream, então sugeri aos meus amigos que fôssemos ver algo diferente — e qual não foi a minha surpresa (a primeira do dia) quando todos toparam.

O sétimo selo (Det Sjunde Inseglet, Suécia, 1956) foi um marco na minha vida. Não somente fez com que eu e meus amigos descobríssemos um cinema diferente dos filmes de ação de Hollywood, mas tocou, como nunca um filme havia feito até então, em questões pessoais que sempre me atormentaram. Minha surpresa foi ainda maior quando, ao final do filme, perguntei, temeroso, aos meus amigos se haviam gostado do filme, e (segunda surpresa do dia) todos disseram que sim, pois, embora curto (apenas 100 minutos), o filme havia trazido à tona questões que também os atormentavam. Discutimos então, por longas horas, a nossa formação religiosa, o nosso medo da morte, a sensação de culpa, o castigo, as injustiças que se cometem em nome de Deus, a possibilidade de buscarmos um sentido para a vida através da arte. E nunca o cinema havia produzido isso em nós. Éramos adolescentes, e um novo mundo se abriu: o cinema podia ser muito mais do que tiros, explosões, perseguições e tramas policiais. O cinema, a partir de então, poderia provocar, fazer-nos refletir, dar calafrios, emocionar. É como diz o crítico Gary Giddens: se dizem que um filme é bom para você, pode saber que ele não é bom para você. De fato, O sétimo selo foi algo terrível para nós!

Algo que me intriga imensamente é o fato de que depois daquele primeiro de janeiro de 1998, revi O sétimo selo inúmeras vezes, sem nunca me cansar de cada “releitura”. Cada sessão ainda é sempre um imenso universo a descortinar. Tenho a sensação de que é sempre um filme diferente que vejo, dada a grandeza dos seus diálogos. É como reler Dom Casmurro, ou Grande sertão: veredas - muitos pensam saber a trama, muitos pensam saber os problemas essenciais levantados pela obra, e se surpreendem a cada leitura com aspectos que numa primeira leitura passam despercebidos. Em textos grandiosos como esses, há sempre muito mais do que até mesmo um olho atento imagina.

Em sua autobiografia, intitulada Imagens (1990), Bergman diz ter filmado O sétimo selo em apenas 35 dias, e afirma ainda que é um dos poucos filmes de sua autoria que acalentava o seu coração. O sétimo selo ainda acalenta o meu, quase dez anos após a primeira vez em que o vi. Descobrindo os filmes de Bergman, compreendi menos ainda a aventura da vida — mas a caminhada pela vida a partir da descoberta de sua arte, indubitavelmente, tornou-se mais saborosa.

*Texto originalmente publicado em Germina Literatura em Setembro de 2007, dois meses após a morte do diretor. Esta versão está ligeiramente modificada.