Tive muita sorte em ver meu primeiro filme de Ingmar Bergman (1918-2007) no cinema. Sim, há quem diga que o cinema não faz diferença, mas para mim, a sala, a tela gigante, o som alto fazem toda diferença. Estes recursos permitem que os filmes sejam capazes de apelar à minha sensibilidade de uma maneira decisiva.
De antemão, peço desculpas aos críticos de cinema – este espaço deveria, talvez, ser deles. Não sei nada sobre aspectos técnicos do cinema, sou incapaz de dar veredicto sobre uma boa ou má atuação — limito-me, apenas, a relatar como o cinema funciona para mim, ou melhor, como o cinema funciona em mim.
Era ano-novo, se não me falha a memória, primeiro de janeiro de 1998. Eu e alguns velhos amigos nada tínhamos para fazer, e alguém sugeriu que fôssemos ao cinema. Eu ainda morava em Belo Horizonte. Consultei o caderno de cultura do jornal Estado de Minas, e descobri então, na seção de cinema, um filme sueco, lançado em 1956, cotado com cinco estrelinhas! Resolvi ler então a sinopse, que me chamou a atenção: “Cavaleiro retorna das cruzadas e encontra a Europa devastada pela fome e peste negra. Enquanto busca um sentido para a sua vida, joga xadrez com a morte”. O tema me deixou espantado! A idéia de jogar com a morte enquanto busca-se um sentido para a vida era simplesmente estonteante! Até então só conhecia filmes do mainstream, então sugeri aos meus amigos que fôssemos ver algo diferente — e qual não foi a minha surpresa (a primeira do dia) quando todos toparam.
O sétimo selo (Det Sjunde Inseglet, Suécia, 1956) foi um marco na minha vida. Não somente fez com que eu e meus amigos descobríssemos um cinema diferente dos filmes de ação de Hollywood, mas tocou, como nunca um filme havia feito até então, em questões pessoais que sempre me atormentaram. Minha surpresa foi ainda maior quando, ao final do filme, perguntei, temeroso, aos meus amigos se haviam gostado do filme, e (segunda surpresa do dia) todos disseram que sim, pois, embora curto (apenas 100 minutos), o filme havia trazido à tona questões que também os atormentavam. Discutimos então, por longas horas, a nossa formação religiosa, o nosso medo da morte, a sensação de culpa, o castigo, as injustiças que se cometem em nome de Deus, a possibilidade de buscarmos um sentido para a vida através da arte. E nunca o cinema havia produzido isso em nós. Éramos adolescentes, e um novo mundo se abriu: o cinema podia ser muito mais do que tiros, explosões, perseguições e tramas policiais. O cinema, a partir de então, poderia provocar, fazer-nos refletir, dar calafrios, emocionar. É como diz o crítico Gary Giddens: se dizem que um filme é bom para você, pode saber que ele não é bom para você. De fato, O sétimo selo foi algo terrível para nós!
Algo que me intriga imensamente é o fato de que depois daquele primeiro de janeiro de 1998, revi O sétimo selo inúmeras vezes, sem nunca me cansar de cada “releitura”. Cada sessão ainda é sempre um imenso universo a descortinar. Tenho a sensação de que é sempre um filme diferente que vejo, dada a grandeza dos seus diálogos. É como reler Dom Casmurro, ou Grande sertão: veredas - muitos pensam saber a trama, muitos pensam saber os problemas essenciais levantados pela obra, e se surpreendem a cada leitura com aspectos que numa primeira leitura passam despercebidos. Em textos grandiosos como esses, há sempre muito mais do que até mesmo um olho atento imagina.
Em sua autobiografia, intitulada Imagens (1990), Bergman diz ter filmado O sétimo selo em apenas 35 dias, e afirma ainda que é um dos poucos filmes de sua autoria que acalentava o seu coração. O sétimo selo ainda acalenta o meu, quase dez anos após a primeira vez em que o vi. Descobrindo os filmes de Bergman, compreendi menos ainda a aventura da vida — mas a caminhada pela vida a partir da descoberta de sua arte, indubitavelmente, tornou-se mais saborosa.
*Texto originalmente publicado em Germina Literatura em Setembro de 2007, dois meses após a morte do diretor. Esta versão está ligeiramente modificada.

Caro Argonauta-Bergeniano,
Tocante o relato do Sétimo Selo. Ligação entre tela e vida é o que diferencia cinemsa de vídeo-game filmado. Você deveria investir mais na crítica cinematográfica.
Eu continuo jogando xadrez com a morte, mas já perdi todas as peças. estou na fase “Rei que foge só” kkkkk
um ab
Edu
PS- Este seu blog ficou sofisticado, mas eu tenho apanhado um cado para conseguir acessar
Edu, espero que esta nova página tenha ficado mais fácil pra navegar!
Abraço!